AVISO

Querido leitores de momento o Cold Blood Fanfics encontra-se em manutenção.

Voltaremos em princípio ainda este mês com mais novidades, colunas novas, entrevistas com autores de fanfics, etc..., provavelmente também com uma nova cara.

Por isso, se virem novos conteúdos no blog, não se "assustem" nem pensem que voltamos ao ativo.

Quando estivermos terminando postaremos uma mensagem.

Obrigada pela atenção.

A Equipa do CBF
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E Se Jasper Não Se Transformasse...

AUTORES: JAKE BLACK & JASPER HALE


CAPA: MEREÇO UM CASTELO

Sinopse: Jasper passou por maus bocados durante a Guerra Civil Americana em 1861, mas... E se ele tivesse fugido de Maria, Nettie e Lucy no caminho de volta a Galveston? Como seria sua vida? É exatamente o que essa fanfic irá contar, como seria a vida de Jazz até seus últimos dias.

CAPÍTULO 01: Três

CAPÍTULO 02: Joe

CAPÍTULO 03: Doutor

CAPÍTULO 04: Tenente

CAPÍTULO 05: Terno

CAPÍTULO 06: Whitergrey

CAPÍTULO 07: Duffy

CAPÍTULO 08: Pecado

CAPÍTULO 09: Tempo

CAPÍTULO 10: Minha Vez

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 10: Minha Vez

[Jasper]
Eu já nem posso mais acreditar em tudo pelo que passei. Todas as risadas que eu dei, todas as lágrimas que derramei, todos os abraços que não me envergonhei em dar.
Segui muitos conselhos enquanto tive amigos para me dar. Fiquei bravo e irritado, às vezes, é verdade, não nego, mas creio que em muitas vezes aquela foi a reação mais adequada.
Passei muito nervoso algumas vezes, chegando a suar toda uma pequenina toalha de mão.
Tive inúmeras dores de cabeça... Algumas foram necessárias por conta de meus parentes, outras desnecessárias, por conta do negócio da família.
Enfim... Muitas coisas aconteceram sem o meu consentimento, mas eu aprovo as suas existências... É necessário sofrer para dizer que finalmente, eu vivi!
E eu posso afirmar que, durante todo esse tempo em que vivi, procurei fazer sempre o que era o melhor para mim e minha família.
Já estava começando a ficar difícil respirar. O ar que entrava queimava por todo o caminho que ele percorria.
Na realidade, tudo doía. Mas esses fatos continuariam às escuras... Afinal, todos já estão sofrendo comigo, por que então eu teria de deixá-los mais preocupados ainda?
Não era justo!
A enfermeira entrou no cômodo.
- Senhor, está na hora do almoço!
Almoço... Eu estava sem fome, mas se eu não comesse, meus pitocos ficariam preocupados...
- Obrigado, mas traga-me pouco, por favor!
- Mas, senhor...
- Estou sem fome!
- Está com dor onde? – enfermeiras sempre sabem que dói sem você falar sequer uma palavra... E eu tinha medo de enfermeiras por causa disso!
- Estou bem!
- Não precisa esconder as coisas de mim, senhor...
- Só está me incomodando aqui – depositei minha mão sobre meu tronco que subia e descia com fraqueza... Era o meu pulmão o que doía mais...
- O senhor prefere que eu faça uma massagem antes que o senhor se alimente?
- Não, muito obrigado. Apenas pegue a comida...
- Então, antes de ir, ajudarei o senhor a se levantar, ok?!
Ela me ajudou a me pôr sentado. Essa era um sensação estranha, pois assim eu tinha a visão total de meu quarto.
Tudo o que eu já havia feito, passado ou sentido naquele quarto, estava em minha mente... E eu estava justamente no cômodo que, muitas vezes, eu fiquei horas e horas com minha mulher, Duffy.
- Voltarei em breve!
A moça saiu, e então fiquei a sós com minha nostalgia do quarto.
Os sentimentos e os segundos aqui vividos começaram a arranhar a fina pele de meu consciente. Tudo se passava por mim agora...
De repente, tudo começou a se tornar fácil de lembrar. Eu podia lembrar tudo agora!
Eu não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim, eu só sabia que meus olhos já estavam transbordando de lágrimas...
Era muita coisa para apenas uma pessoa...
E eu não sabia por mais quanto tempo eu conseguiria aguentar... Essa era a pior parte!
A enfermeira voltou com uma bandeja com a sopa batida e água.
Ela ajeitou a bandeja em uma das cômodas, e então trouxe até mim a banqueta de comer em cima da cama... Ela pegou a bandeja e a depositou em minha frente.
Ela encheu uma colher com aquele líquido e foi o trazendo em direção a minha boca. Ergui uma mão para tentar pegar a colher – eu não gostava de ser tratado como uma criança...
Minha mão tremeu e quase caiu – já que eu estava sem força – na sopa. A enfermeira não gostaria que isso acontecesse, tenho certeza disso!
Tentei recolhê-la, mas foi sem sucesso... A paciente enfermeira voltou a colher ao prato, e então me ajudou com meu membro.
Fiquei envergonhado pelo meu ato irresponsável.
- Desculpe-me!
- Está tudo bem, senhor. Esta tudo bem!
- Não, não está!
- É tudo por conta da doença, senhor... O senhor não tem motivos para pedir desculpas...
- Mas eu quis fazer isso... Meu braço não se moveu sem que eu quisesse...
- Mas eu acredito que o senhor tenha feito isso de boa fé, não por maldade!
- Eu só queria... queria pegar a colher!
Ela olhou carinhosamente para mim, e então fez o meu desejo. Pegou minha mão e ajeitou a colher entre meus dedos.
Como eu estava sem força, ela segurou meu braço e meus dedos para que a colher não se soltasse de lá e eu ficasse completamente sujo.
Consegui levar a colher em minha boca. Engoli a sopa de frango morna, e então ela me ajudou a buscar por mais líquido.
E assim foi...
Após o almoço desastroso – afinal me sujei todo mesmo com ajuda – a enfermeira veio me limpar.
Ela pôs um paninho seco logo abaixo da camisa suja, e então pegou outro pano úmido e começou a tirar as maiores manchas amareladas.
Mesmo não querendo, eu ainda me sentia como se fosse uma criança. Vendo-a me limpar, eu me lembrava de minha amada mãe limpando a minha camisa após derrubar suco de toranja, ou então depois de derrubar arroz com creme.
Ela sempre havia sido tão querida, tão... Adorada!
Sempre procurei demonstrar tudo o que eu já tinha sentido por ela! Eu errei com ela, mas graças a Deus tive tempo o suficiente para me redimir.
E quando eu pensava que ela me ignoraria, viraria as costas, ela fez justamente o contrário! Ela abriu a porta com um sorriso e lágrimas nos olhos. Assim que conseguiu sair de seu transe, ela apenas veio correndo até mim e me abraçou.
Agora essa realidade parecia tão distante!
Tanta coisa mudou desde aquele tempo!
Após me limpar, a enfermeira deu um jeitinho e começou a tirar a camisa suja. Ela a amontoou em um canto do quarto, e então pegou outra limpa.
Ela deu outro jeitinho e me pôs a camisa.
Isso ainda me lembrava a minha mãe.
Sem ter noção do que estava me acontecendo, senti o líquido quente e salgado escorrer e pausar em meus lábios.
A enfermeira parou e então pôs a mão em meu ombro.
- Está tudo bem?
- Sim, é só que... Me traz lembranças ver tudo o que a senhorita faz!
- Eu... eu... Desculpe-me!
- A senhorita não tem culpa! Ninguém tem...
Ela percebeu o tom sombrio em minha voz e então veio se sentar ao meu lado. Ela me abraçou. Aquilo foi demais para mim.
Caí no choro. E deixar que ela me visse daquele jeito era vergonhoso! Sempre aprendi a não chorar de frente a uma mulher, mas eu acreditava que agora, na situação em que me encontrava, eu poderia fazer sem me recriminar.
Não me policiei.
Liberei meus sentimentos e, então, as lágrimas aproveitaram.
Pouco tempo depois, eu já me encontrava aos soluços.
Isso fez com que ficasse mais difícil ainda de respirar.
Comecei a tossir... Nada era pior do que não conseguir respirar diariamente, e para piorar, eu ainda estar todo acumulado pelo choro.
Isso dificultou e muito a minha vida.
Comecei a respirar com muita dificuldade.
Eu quase não sentia mais o ar entrando.
Vi a enfermeira se desesperar e tirar a mesinha de cama correndo, sem se preocupar com a bandeja acima. Ela a depositou no chão mesmo, e então correu para me deitar.
Deitado, a situação continuou piorando.
Para falar a verdade, eu estava cansado. Eu estava cansado de ver meu pulmão trabalhando insistentemente desde quando eu era pequeno. Eu estava cansado de sentir o meu coração bombear todo o meu sangue.
E eles estavam cansados também.
- Senhor, senhor... Por favor, olhe para mim! Olhe para mim!
Fiz o que ela quis.
- Senhorita Dursty, a senhora é uma boa moça!
- Senhor, por favor, não fale muito! Isso só vai...
Chegou a hora! Eu sabia disso!
- Senhorita, pegue um papel e uma caneta!
- Mas...
- Um papel e uma caneta, por favor!
- Ok – e então ela saiu correndo. Ela abriu todas as gavetas das cômodas de meu quarto e começou a revirá-las. Por fim, ela conseguiu encontrá-los.
Ela veio até mim.
- Senhorita, sabe escrever?
- Sim, senhor!
- Então escreva, por favor: “Eu, Jasper Whitlock, deixo todos os meus bens para meus descendentes. Que as minhas propriedades e as terras sejam divididas entre meus queridos filhos, e que, se meus filhos permitirem, meus objetos sejam doados às instituições que precisem!”
- Mas, senhor, não acha que...
- Continue, por favor.
- Sim.
- “Meus netos poderão decidir com o que ficar de menor valor, mas meus filhos deverão ficar com tudo o que eu tenha de mais valioso. As casas, as terras, as plantações, as cabeças de gado... Tudo!”
- Senhor...
- Estou acabando. “Sempre amarei os que estiveram comigo! E não importa o que acontecerá ou para onde irei, sempre amá-los-ei! Agora, sinto que minha amada mulher, Duffy, me espera! Não posso deixá-la por mais tempo sozinha. Meu lugar é o mesmo em que ela está, e é por isso que peço a todos para que não se sintam chateados, pois eu não estarei!
“Com amor, Jasper Whitlock!”
A enfermeira ficou apenas me olhando.
- Posso assinar?
- Sim.
Ela estendeu o papel e me entregou a caneta. Risquei a superfície, e a entreguei de volta a caneta.
- Agora sele esta carta e mande alguém levá-la até Dean, meu filho mais velho!
Ela obedeceu de primeira, mas ao passar pela porta, parou e voltou alguns passos...
- Senhor, o senhor ficará bem?!
- Eu já estou bem, minha querida! Vá, pois não quero que me veja ir com minha mulher!
Ela pausou e, por fim, compreendeu o que eu estava querendo dizer. Uma lágrima riscou suas bochechas, mas então aceitou lentamente.
Ela abaixou a cabeça e partiu.
Agora seria a minha vez...
Fechei os olhos, e então senti Duffy perto de mim. Sua beleza continuava a mesma. Ela estendeu a mão para mim, que eu tentei a pegar.
Assim que consegui alcançar sua mão, senti a escuridão me envolver.
Agora eu estava saindo da minha solidão e estava voltando para o lugar onde sempre pertenci: o lugar onde minha mulher estava, sem me importar qual fosse!
FIM.

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 9: Tempo

[Jasper]
Cada passo que ela dava, eu podia ver olhos brilhantes e sorrisos escancarados dos nossos convidados.
Alguns cochichavam entre si, outros apenas se cutucavam. Algumas meninas – que creio serem amigas de Duffy – apenas suspiravam...
Sim, Duffy estava linda em seu vestido de noiva. E olhando para ela, eu mal podia me notar... Eu mal me sentia em pé...
Ela realmente causou um frisson em mim!
[Duffy]
A entrada foi, com certeza, o momento mais tenso em toda a minha vida até agora. Papai estava me acompanhando ao lado, e ele aparentava estar bem tranquilo.
Óbvio! Quem estava se casando não era ele! Era eu!!!
Eu estava muito nervosa e extremamente preocupada com o vestido e meus cabelos... Todos olhavam apenas para mim!
Eu estava tão nervosa com os olhares, mas tão nervosa, que obriguei meu braço a colar em meu tronco – assim, pelo menos, ninguém perceberia o buquê tremendo...
Mas... Lá estava ele!
O terno escuro combinava perfeitamente com seu tom de pele. Seus olhos apenas me acompanhavam. Sua boca estava aberta em um imenso sorriso.
Sim... Ele estava extremamente feliz!
[Jasper]
Finalmente, Duffy chegou até mim. Cumprimentei seu pai, o senhor Whitergrey, e então ele retirou a delicada mão de sua filha de seu braço, e a pôs descansar em meu braço.
Onde sua pele tocou – mesmo que eu estivesse com o terno, – senti leves choques em meu braço. Era como se... Pertencêssemos ao mesmo lugar, e tivéssemos de estar juntos...
Era a coisa certa a se fazer... Ficar perto dela, para sempre!
O padre tomou seu lugar e começou a faladeira.
Eu mal prestei atenção no que ele falava – eu apenas ficava olhando para sua mão ainda em meu braço, depois suas mãos cruzadas logo a frente de seu corpo, e depois sua face de perfil, – e creio que isso a aborreceu, pois percebi um cutucãozinho em meu braço.
Balancei a cabeça para sair de meu transe, então ouvi o padre me perguntando.
- Jasper Whitlock, aceita a senhorita Duffy Scarllett Whitergrey como sua esposa?
- Sim, claro!
Respondi tão rápido e de uma forma tão feliz, que todos tiveram que abafar uma risadinha – alguns não conseguiram, obviamente. Sempre tem um que não consegue!
Olhei para ela, que respondia meu olhar de uma forma tão quente que eu podia sentir na distância em que estávamos um do outro. Nós éramos um só, independentemente de estarmos casados ou não...
- Duffy Scarllett Whitergrey, aceita o senhor Jasper Whitlock como seu marido?
- Sim, eu aceito!
- As alianças! – o padre chamou. Cris entrou novamente – antes ela tinha entrado jogando pétalas de rosas no tapete vermelho, agora ela vinha com a mesma cestinha, mas com apenas dois anéis dentro. – Agora repitam comigo...
Ele falou um monte, e então repetimos o que ele nos mandou dizer.
- Vocês tem o voto de fidelidade? – o padre nos questionou.
- Sim, eu tenho. – O padre então fez sinal para que eu tomasse à dianteira. Dei um pigarro para limpar a garganta, e resolvi então recitar um verso do poema de meu poeta favorito.
“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno..”
- Shakespeare
- Mas é... É... Lindo! – ela sussurrou.
- É sobre como me sinto quando estou perto de ti. Você rouba todo meu tempo! – E ela suspirou ao fim de minhas palavras.
- A senhorita tem algo? – o padre a perguntou.
- Eu... Bem... Só uma pequenina coisa: eu te amo!
- Pequenina, mas que resume tudo! – a corrigi. Ela riu em resposta.
- Alguém há de interromper o casamento? – o padre perguntou a todos. Se alguém resolvesse se intrometer, ah essa pessoa teria de se ver comigo!!! Pelo bom senso, ninguém respondeu!
- Então que Deus abençoe o novo casal Whitlock. O noivo pode beijar a noiva!
Virei-me e então dei um beijinho em sua mão e em sua testa. Ela corou e então todos começaram a nos aplaudir.
Pronto! Estávamos casados e agora em diante seríamos Sr. e Sra. Whitlock!
[Duffy]
A cerimônia de casamento foi linda! Tudo ocorreu perfeitamente bem! A troca dos votos foi mais linda ainda, e o poema que Jasper disse foi extremamente profundo e introspectivo!
Eu não podia negar mais, e agora que eu estava casada, já não tinha mais motivos mesmo: eu era completamente apaixonada por este homem! Jasper!
A festa teve início.
Todos estavam alegres conversando em suas mesas. Papai e mamãe estavam orgulhosos de mim, e eles não conseguiam esconder. Mamãe, na verdade, chorava muito. Que bobinha...
Andei para todos os lados junto de Jasper. Onde eu estivesse, ele estava lá ao meu lado. O mesmo acontecia quando ele ia a outro lugar, pois eu ia junto dele.
Mamãe me chamou a atenção e disse que em assuntos dos homens eu tinha de deixá-los a sós, mas era Jasper quem me levava. Que culpa eu tinha se ele queria que eu fosse junto conhecer seus poucos amigos?
Eu havia o apresentado minhas primas e amigas, então ele foi me apresentar seus parentes e amigos... Nada mais justo!
- Querida – sim, acabamos de nos casar e Jasper já me chamava de “querida”, – estou faminto! Vamos comer algo?
- Sim, claro! Também estou com fome! – mamãe ouviu aquilo e fez careta. – Bem, estou com um pouco, sabe?!
- Não se preocupe – ele disse sussurrando para mim, – eu sei que as mulheres mais adultas ensinam que mulheres tem de comer pouco, mas eu gosto de mulheres que gostem de comer e não se sintam culpadas por isso! Não se preocupe em agradar sua mãe! Agora você já é casada e independente dela!
Sorri com suas palavras... Ele era tão carinhoso e compreensível comigo! Eu só não lhe respondi que eu iria mesmo comer pouco não por conta de mamãe, mas sim por conta deste espartilho apertado em minha cintura.
Deus... Como mulher sofre! Mas... O que nós não fazemos para ficar bonitas?
- O que preferes? – Jasper me perguntou quando estávamos nos sentando.
- Qualquer coisa para mim, está bom!
- Então... – um criado chegou em nossa mesa, – traga-nos frango, vinho, e... Frutas, e... Tudo o mais que vocês tiverem na cozinha, por favor!
Ri com suas palavras, e então quando o criado chegou com a comida, nos deliciamos com o banquete. Estava delicioso! No arroz havia certo molho com tempero de manjericão. Estava divino!
A carne estava bem temperada e mole. O creme de milho estava tão delicioso que até repeti a porçãozinha que peguei – até me senti envergonhada por minha falta de educação em repetir o prato, mas... Se Jasper não liga, eu também não ligo!
Após a refeição, vieram os doces! Aaaah, que delícia que estava o doce de toranja!
Jasper e eu comemos muito mais doce do que o almoço em si, e então percebi que realmente éramos o casal perfeito. Tínhamos tanto em comum, que pude sentir os olhares invejosos de minhas primas...
Mas eu não ligaria para elas... Agora, eu só tinha olhos para Jasper!
[Jasper]
Nossa, nos esbaldamos no doce de toranja! Nunca me senti tão feliz por encontrar uma pessoa que gostasse tanto do tal doce quanto eu!
Ficamos conversando por um tempo antes que alguém viesse nos incomodar, mas como em festa de casamento noivo e noiva nunca tem um tempo a sós, Mary veio até nós.
- Vamos, vamos! Levantem-se! Já está na hora da dança!
Urgh... Dança... Valsa...
Eu não era bom nisso...
Não me levantei de primeira, mas como vi que Duffy iria se levantar, tive de fazer o mesmo.
Fomos em direção ao local que mamãe, Cris e Duffy separaram exclusivamente para a dança. Todos foram nos acompanhando.
Assim que chegamos lá, tentei me lembrar do que Mary havia me explicado: coluna ereta, uma mão acima da cintura e a outra palmo-a-palmo com a mão de Duffy. E, ah, sim... Olhos nos olhos...
Posicionamos-nos, e então Mary fez sinal para que a banda tocasse quando quisesse.
Nossa... Isso já era difícil quando havia várias pessoas olhando do que só dançando com mamãe na sala e Cris rindo da minha dança desajeitada.
Assim que cheguei bem perto dela, sussurrei – pelo menos, assim ela não teria como ficar chateada comigo. Eu já estava a avisando!
- Sou péssimo nisso!
- Não se preocupe, está tudo bem!
- Não está, não! Eu tenho que lhe conduzir, mas sei pouco sobre isso!
- Faça apenas o que eu fizer... Siga-me!
A música começou e eu jurava que a honra de nosso casamento logo, logo, iria para o inferno com essa dança, mas... Não é que Duffy era realmente boa nisso?!
Entreguei-me aos seus doces e leves passos de bailarina. Perdendo-me em seus olhos azuis, vi que eu já não preocupava mais com o que eu fazia ou deixava de fazer... Apenas... Fazia!
Não era eu quem estava manipulando a dança, era ela, mas não era essa a sensação! Parecia que éramos nós dois juntos, ao mesmo tempo! Assim que peguei o “jeito” da coisa, Mary e Joe, e Laura e Gregory, os pais de Duffy se juntaram a nós na dança.
Os três casais ficaram girando de um lado a outro no quintal, todos sem sintonia.
Aos poucos, outros casais foram adentrando na dança.
Eu já estava confiante com tudo! Gregory pediu licença a mim para dançar com Duffy, então me juntei a senhora Whitergrey, a Laura.
Rodamos alguns minutos, e então devolvi Laura ao senhor Gregory. Duffy voltou a mim, e então Joe veio tirá-la para uma dança. Fiquei com mamãe...
- Você está maravilhoso, filho!
- Obrigado, mãe. Isso é culpa sua, ou pelo menos você tem uma grande parcela de culpa nisso!
Ela riu, e então continuamos a dançar. Assim que a primeira música cessou, nos separamos. Fui até Duffy avisar-lhe o que eu havia visto.
- Dance com seu pai, em breve voltarei!
- Mas, aonde vais?
- Não se preocupe. Estarei aqui em alguns segundos!
Cris estava sentada sozinha de braços cruzados. Alguém devia ter feito algo contra ela. Se bem que, com toda essa dança, eu acreditava que “algo” devia ter feito algo. Estendi minha mão, e ela olhou confusa.
- Aceita dançar, senhorita? – ela sorriu e aceitou minha mão. Voltamos para o local onde estava havendo a dança, e então começamos a bailar junto dos demais.
Duffy viu o que estava acontecendo, e então apenas sorriu compreensiva.
[Duffy]
Mamãe veio falar comigo enquanto eu assistia Jasper dançar com sua irmãzinha, Cris. Ela tinha ficado tão encantadora naquele vestido! Ela parecia uma princesa!
- Querida, está na hora de ir descansar!
- Mas... Mamãe... Mas... – tentei argumentar. Eu queria é ficar ali, e não ir embora!
- Filha, não discuta comigo! É assim que as coisas acontecem. Você precisa descansar antes de viajar!
- Mas...
- Duffy!
- Ok – desisti, e então subi para dormir um pouco antes de anoitecer, pois seria neste momento em que Jasper e eu iríamos para nossa casa, ter o nosso primeiro “momento”!
[Jasper]
Fiquei dançando por horas com Cris. Ela gostou tanto daquilo que mal me deixava respirar!
Duffy estava dormindo há algum tempo, mas era melhor assim. Era, pelo menos, o que todas as senhoritas faziam à tarde em eventos: dormiam para descansar a beleza.
Não me preocupei com isso. Enquanto ela descansava, eu cuidava dos meus futuros negócios e da nossa vida... E eu tinha motivos para me preocupar com isso, afinal, a partir hoje, seríamos marido e mulher, senhor e senhora Whitlock para sempre!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 8: Pecado

[Jasper]
Eu não entendo nada de festas. Absolutamente nada! Nada de quantidade de convidados, mesas, talheres, pratos, taças, toalhas, velas... Enfim... Nada!
Muito menos ainda de padrinhos...
Eu estava completamente perdido no meu próprio casamento, mas eu agradecia profundamente por estar casando com alguém que sabia dessas coisas todas... E que, por sorte, até que tinha um bom gosto para as decisões.
Arcos foram instalados no quintal de casa, e neles havia algumas flores amarelas e outras rosas misturadas. Alguns laços brancos se encontravam nas pontas.
Se me lembro bem, isso era arte de Duffy!
Abençoada seja ela, pois ela tinha feito uma excelente escolha. O quintal ficou majestoso!
A correria aqui em casa era imensa. Todos estavam correndo de um lado para o outro – e eu aqui, sem saber o que fazer.
Há poucas horas, eu tive uma conversa com meu pai e alguns tios distantes. Eles queriam me dar os parabéns pelo casamento e me ensinar os segredos de um bom casamento. Não que eu estivesse inseguro, ou assustado, mas eu gostei da conversa, pois eles estavam casados há mais de trinta anos com suas mulheres e nunca houve brigas...
Pelo menos eu penso que nunca tiveram brigas...
E se, por acaso, chegaram a ter, isso não foi passado para mim...
Mas... O que mais me assustou de tudo aqui, foi, sem dúvida alguma, o que meu tio Yank resolveu me contar, contrariando o que meu pai dizia: “Ele não pode saber dessas coisas já... Ele ficará nervoso!”
E por uma questão de bom senso, meu pai tentou me convencer, mas eu já estava derrotado. Tive de me virar e perguntar o que meu tio tinha de me contar, e então, ele me disse com sua voz rouca:
- Na noite de núpcias, você vai devagar até o quarto onde estará sua noiva. Chega com carinho, a abraça, conversa até que...
Prefiro não contar onde é que tudo isso termina, até porque meu tio fez questão de contar detalhe por detalhe. Onde eu deveria por a mão e onde não, o que eu deveria fazer, e até a velocidade dos movimentos...
Não é preciso dizer que fiquei vermelho feito tomate naquele momento. Todos riram de mim, mas eu já estava cheio de pecado. Pensava em coisas que não deveria pensar antes do casamento, e meu tio Yank não estava ajudando também.
Meu pai resolveu fazer o que deveria ser feito: tirar tio Yank daquela sala antes que minha mente e coração estivessem pecaminosos por completo.
Agora eu tinha mais este problema: como ver Duffy e não imaginar viver tudo o que vi em minha mente? Como vê-la e tocá-la sem ficar pensando o quão bom seria sentir o toque de sua delicada e fina pele em meu corpo? Como eu poderia ficar oferecer o braço e ver sua delicada mão se assentar ali sem imaginar seu corpo moldando em meu corpo?
Eu estava cheio de pecados, e precisava pôr um fim nisso!
Eu precisava me distrair, e esquecer de vez tudo aquilo!
Ao fim da conversa, acabei me levantando e indo fazer a última veste de meu terno novo. Joe me acompanhou. Ele me elogiou inúmeras vezes... Disse que eu estava elegante, e que estaria concretizando meu amor por Duffy da forma mais honrosa que eu poderia: com o terno que chamamos ser “militar”.
Este terno lembra muito a minha antiga farda, e de fato, ela parecia ser uma farda. Geralmente, os soldados do alto escalão o utilizavam como forma de respeito e seriedade em seu trabalho.
Eu não entendia o motivo ao certo, mas podia afirmar livremente que este “terno-farda” enaltecia muito o alter-ego do indivíduo.
[Duffy]
Não vi Jasper a manhã toda. Fiquei me perguntando onde é que ele estaria em uma hora como essas, e se ele estaria mesmo em nosso casamento, afinal, seria daqui a apenas duas horas!
Em duas horas, pouquíssimas coisas poderiam ser feitas... Inclusive, desmarcar o casamento! Eu não queria ficar esperando por alguém que nunca chegaria... Não de novo – apesar de que essa é a primeira vez em que fico noiva mesmo...
Os outros moços até se interessavam por mim, mas era eu quem não gostava deles... E se agora, por ironia do destino, for Jasper que não me quer...
Eu sabia que ele me amava, mas e se ele não quisesse mais compromisso?!
Deus... Estou encrencada!
- Querida, que face preocupada é essa? – era Mary, mãe de Jasper, e daqui a duas horas, minha sogra. – Vamos, relaxe! Ficar preocupada agora lhe deixará com muitas rugas... E isso não é o que pretendemos, não é?!
Mary estava tão animada com o casamento, mas eu estava preocupada, e não adiantava ela ficar me dizendo que estava tudo bem, pois eu continuava preocupada.
- Querida, não se preocupe! Está tudo bem com o casamento!
- Mas... E Jasper?
- O que tem Jasper, querida?
- Ele está... bem?
- Sim, mas é claro que está... Só tivemos um probleminha com meu cunhado e tio de Jasper, Yank, mas tirando isso, está tudo bem!
- Que probleminha, Mary? – ele convenceu Jasper que casar era besteira? Jasper iria desistir de se casar comigo?
- Hmm... Parece que Yank estava contando como... como... – ela veio mais perto e começou a sussurrar em meus ouvidos, – como “agir” durante a noite de núpcias!
- E ele? O que fez?
- Ele ficou muito vermelho de vergonha, e então Joe pediu para que ele se retirasse da sala antes que ele o expulsasse a força...
Deus, por essa até eu fiquei vermelha de vergonha...
- E Jasper continuou lá?!
- Sim. Ele continuou conversando com seus tios sobre o matrimônio e negócios... Aliás, quando passei na frente da porta, ouvi que eles estavam planejando ajudar Jasper com o gado e as plantações...
- Isso é uma boa notícia!
- Sim, é mesmo! E depois eles saíram todos e Jasper veio até mim todo contente...
- Por quê?
- Oras, por quê? Porque ele vai se casar com você, querida! – Sim! Ele ainda queria se casar comigo... Não pude me repreender forte o suficiente, e isso fez com que um enorme sorriso estampasse minha face! – Ele está todo contente, mas também está nervoso! Até me disse que estava inseguro quanto a te manter...
- Como assim?
- Ele estava com medo dos negócios não darem certo e não ter como lhe comprar as joias, roupas... Estava também com medo de que você pudesse engravidar e ele não ter como financiar todos os gastos da família, mas eu disse que não era para ele se preocupar...
- Por quê?
- Porque vocês dois terão a nossa família e a sua família ainda, Duffy! Vocês se casarão, mas não é por isso que terão de esquecer completamente de que existimos! Vocês formarão uma nova geração da família, mas ainda assim farão parte das duas famílias: da Whitlock e da Whitergrey!
Suspirei em alívio...
- Não se preocupe com essas coisas, minha querida! O mesmo que eu lhe disse, também respondi ao Jasper... Sei que os dois estão curiosos e nervosos quanto a nova vida que levarão daqui para frente, mas tudo estará bem! Vocês sempre terão a nós para recorrer quando houver algo a se preocupar!
- Muito obrigada, Mary!
- Não precisa agradecer, minha querida e futura nora! Mas agora, saia já da frente deste espelho e venha já tomar um bom banho quente! Você precisa relaxar!
Me levantei e então de súbito uma das criadas dos Whitlock entrou no quarto trazendo consigo um grande balde de água. Ela despejou tudo na bacia e então outra criada entrou logo atrás com mais água.
Mary abriu um potinho com um pozinho – sais – e despejou na banheira formando uma grande e convidativa espuma. Ela ainda me ajudou a me despir, e então entrei ali naquela banheira.
A temperatura da água estava perfeita!
Mary ficou lá comigo – sentada ao lado da banheira – conversando comigo por um bom tempo, e então me deixou descansar sozinha.
Deus, esse banho realmente me acalmou!
[Cris]
Todos aqui em casa estavam loucos! Papai Joe estava elogiando tudo o que Jasper já havia feito em sua vida para os homens com que ele conversava... Jasper ficava sentado sem falar com ninguém na cozinha, e quando eu ia falar com ele, ele só respondia que queria pensar um pouquinho. Na verdade, apesar dele não admitir, eu sabia que ele estava nervoso...
Mamãe Mary agora estava me puxando pelo punho para dentro de meu quarto, e eu mal pude me mexer muito quando já reparei que ela estava tirando as camadas de meu vestido. Olhei para fresta da porta e vi que meu vestido rosa-bebê já estava em cima de minha cama, todo estirado, sem nenhuma dobra ou amassado.
Entrei na banheira sem falar nada! Eu adorava banhos! As espumas que mamãe fazia na banheira eram enormes, e eu adorava brincar com elas!
[Jasper]
Tudo estava aparentemente bem para todos... Com exceção de meu caso. Eu continuava a pensar “naquelas” coisas, e eu sabia que isso não era boa coisa...
Decidi tomar alguma atitude. Corri para o padre que estava chegando. Já faltava menos de uma hora para a cerimônia, e eu continuava a ter esses pecados em minha mente.
- Padre, preciso falar com o senhor!
- Mas, meu filho, tem de ser agora?!
- Sim, padre! Por favor!
Ele se desculpou com alguns homens que o acompanhavam e então o encaminhei para a sala de jantar, que estava completamente vazia.
- Sim, filho. O que tens a me dizer com tanta veemência?
- Eu pequei, padre, e não consigo tirar isso de minha cabeça!
- Isso tudo não é só o nervosismo pelo casamento, jovem rapaz?
- Na verdade, conversei com meus tios, e um deles acabou me falando da noite de núpcias...
- Sim, isso deixa todos muito nervosos! Já conversei com vários noivos pensando nisso!
- Já?
- Sim!
- Então, o que o senhor me aconselha fazer para esquecer?
- Esquecer mesmo, não há nada, mas você pode ficar com a mente mais livre do pecado se rezar dois “Pais Nosso” e duas “Ave Maria”.
- Muito obrigado, padre, pelo conselho!
O agradeci e então subi correndo para meu quarto. Ajoelhei na beirada da cama e comecei a rezar com o máximo de fé que eu já tive em toda a minha vida!
Assim que acabei, Mary entrou em meu quarto.
- Jasper, vá tomar banho. Em breve os convidados chegarão e você ainda estará assim, sujo e fedido! Vá, vá, vá – ela disse me empurrando já em direção ao banheiro.
Levantei-me meio que sem vontade. Duas criadas chegaram com os bales cheios de água, que despejaram ambos em minha banheira.
[Duffy]
Eu já estava quase pronta. Mamãe estava me ajudando com os últimos detalhes do vestido. As pequenas rosas bordadas em meu vestido estavam magníficas, meu espartilho estava preso e meus sapatos já estavam calçados e bem presos em meu pé.
Um teve “toc toc toc” soou da porta do quarto de hóspedes, e então quando gritei: “Pode entrar!”, papai apareceu.
- Filha, eu gostaria de lhe entregar algo!
Fiquei muito curiosa sobre o seu presente misterioso, mas acabei dando uma risadinha a respeito daquilo.
- Sim...
Ele abriu uma grande caia florida e então eu pude ver um lindo chapéu de renda branca com fitas também brancas para se prender abaixo do queixo.
- Papai, ele é lindo!
- Bem, eu pensei que gostaria mesmo! A vendedora da loja disse que é ótimo para os dias como os de hoje, ensolarados... Lhe trouxe porque, afinal de contas, hoje é seu casamento, e minha princesinha tem de estar linda, magnífica!
- Greg, por favor! – mamãe chamou a atenção de papai.
- O que foi?
- Hoje nossa filha é muito mais do que uma princesa!
- Ah, sim – ele respondeu. – Hoje ela é a rainha de Houston!
Não pude deixar de sorrir. Contente, peguei o chapéu e o ajeitei em meus cabelos. Ficou perfeito!
Mamãe me ajudou com o colar de diamantes que havia ganho de Jasper de noivado. Molhei meus lábios e dei uns beliscões nas bochechas. Assim que o fiz, uma criada veio nos chamar na porta.
- Por favor, senhorita Duffy, estão todos lá embaixo prontos para a cerimônia, e dona Mary me disse para avisá-la que Jasper já está a sua espera no altar!
Meu Deus! Jasper já está me esperando e eu estou aqui, me olhando para o espelho. Não resisti. Dei uma ultima espiada no espelho, arrumei uns fiozinhos de meu cabelo dourado solto e então sai.

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 7: Duffy

[Jasper]
Fomos para a cozinha. A mesa de jantar já estava repleta da mais farta comida! As nossas criadas sempre faziam tudo do mais gostoso para nós. Cris e eu éramos vítimas para falar da comida, pois adorávamos comer!
Joe e Mary estavam sentados lado a lado, assim como o senhor e a senhora Whitergrey. Ao meu lado esquerdo estava Cris, e ao direito estava Duffy.
Cris se esbanjou na refeição, assim como eu, mas Duffy não comeu muito – devia ser o espartilho sufocante que ela devia estar. Todas as mulheres usavam esses negócios apertando...
Isso era ridículo... Duffy era linda com ou sem espartilho! – E não pensem em besteiras!
Acabamos a janta, e então veio a sobremesa... Ah, a sobremesa!
O doce e aromático doce de toranja fez com que minha boca salivasse de tanta vontade de comer...
- Doce de toranja?! – ofereci a Duffy.
- Sim, um pouco, obrigada!
Peguei o potinho e coloquei a quantia que ela pediu, então me virei para Cris, pois se eu não a oferecesse também, ela ficaria chateada!
- Quanto Cris?!
- Um monte!
Todos riram na mesa, e então Mary fez novamente uma pequena careta em reprovação, mas... Poxa, ela era criança ainda! Tinha dez anos, quase onze!
Peguei para mim também, e então nos esbaldamos no doce... Esse sim Duffy comeu tudo sem se importar com as olhadelas de lado de sua mãe...
Assim que ficamos satisfeitos, voltamos para a sala.
- Pois bem, Joe, quero discutir o casamento de minha filha com seu filho! – o senhor Whitergrey disse logo que se sentou no sofá.
- Logicamente que iremos, Gregory! Mas o que o senhor decidir, ou sua filha, eu arco com as consequências...
- Bem, então, Duffy, minha querida, venha aqui!
- E Jasper, por favor! – ow inferno!
Me levantei após dar uma olhadinha de “me ajude!” a Cris, que ficou sem saber o que fazer... Mary apareceu e pediu para que Cris mostrasse seus bordados à senhora Whitergrey, e ela foi toda contente... Ela nem para ficar e me ajudar...
Tudo bem... Eu esperava sobreviver a isso!
Sentei ao lado de meu pai, enquanto Duffy ao lado de seu pai.
- Duffy, querida, o que pretende em seu casamento?! – seu pai lhe perguntou. Ela corou, mas respondeu.
- Eu gostaria que fosse um daqueles casamentos que aparentam sair dos contos de fada!
- E isso inclui o quê, mais especificamente?! – meu pai a questionou.
- Bem, um vestido bem longo e rodado, muitas flores...
- Qual flor preferes?!
- Gosto muito de rosas vermelhas, mas também sou apaixonada por outras coloridas... – ok, já anotei o seu gosto mentalmente, Duffy! Em breve receberá um buquê de rosas em sua casa!
- E o que mais? Pode falar querida, sinta-se a vontade! Pagarei por tudo! meu pai a encorajou.
- Mas, senhor Whitlock, eu não acho justo...
- Sim, sim, sim... É tradição os Whitlock pagar pelos casamentos! Não se preocupe, estará tudo do jeito que a senhorita quiser!
- Bem, então... Eu... Eu adoraria que tivéssemos alguém para cantar alguma música para nós, e eu gostaria que fosse em um local amplo o suficiente para que Jasper e eu pudéssemos dançar a valsa! – ergh... Valsa? Acho que já estou desistindo do casamento!
- Tem algum lugar em mente?!
- Não, não senhor.
- Então podemos fazer aqui em casa mesmo. O quintal está limpo e é grande o suficiente para a festa! E se fizermos a festa até o começo do próximo mês, pegamos a época das flores das nossas toranjeiras! O que prefere?!
- É... É perfeito! – ela se animou. Seu pai deu um sorriso e então voltou ao meu pai.
- Tem certeza de que pode pagar por tudo? Se quiser, eu posso ajudar...
- Não, senhor... Eu tenho certeza absoluta, Greg! Já avaliei tudo e sei que tenho muito bem como pagar!
- Bom, então pagarei pelo menos pelos adereços e o vestido de minha filha!
- O senhor tem certeza de que não prefere que eu o faça isso também?!
- Sim, certeza, Joe!
- Bem, então, o que mais gostaria em seu casamento, Duffy?!
- Ah... Hmm... Eu não sei!
- Que período você prefere?
- Creio que de manhã seja a melhor alternativa, assim poderemos desfrutar a beleza das flores que o senhor contou!
- Maravilha! E quais os pratos preferidos da senhorita para o almoço?!
- Eu como de tudo, senhor. Não tenho algo preferido! Por que Jasper não escolhe? – opa, eu escolho sim! É só perguntar!
- Mas eu tenho certeza de que Jasper adora tudo o que você gosta! Não é filho?!
- Sim, claro! Absolutamente! – isso foi meio irônico, afinal, eu comia bastante e ela quase não comia...
- Bem, então só peço por doce de toranja! – ela disse envergonhada. Isso querida, doce de toranja é muito bom!
- Ok, então pedirei para que minhas criadas tomem o cuidado de preparar o melhor doce de toranja do Estado do Texas!
Ela riu ainda envergonhada, e eu não pude deixar de rir também...
- E eu mandarei que algumas de minhas criadas venham ajudar na preparação do almoço, então...
- Tudo bem! Mais algum detalhe, querida?!
- Ahh... – ela fez cara de quem estava pensando para ver se não tinha se esquecido de nada. – Na verdade, há algo que eu gostaria de saber, sim, senhor...
- Pois então siga! Não se acanhe!
- Eu gostei muito de Cris, e gostaria que ela fosse a nossa dama de honra! Seria possível?!
- Bem, vejamos!
Joe se levantou e foi em direção à sala ao lado, e voltou junto das três que lá estavam: Cris, Mary e Laura.
- Cris, Duffy queria saber se você aceita ser a dama de honra do casamento dela com Jasper!
- Eu adoraria que fosse você a dama, Cris... Adorei te conhecer!
Cris se animou com a proposta.
- Sim, é claro que aceito... – mas então ela parou, – se mamãe deixar, é claro!
- Sim, minha querida, está tudo bem em você ir de dama! Será uma honra!
Duffy e Cris ficaram em completa felicidade. Cris se sentou ao lado de Duffy.
- Que cor de vestido você prefere que eu vá? – Cris a indagou.
Duffy pensou um pouco e então respondeu.
- A flor da toranja é amarela com uns toques em laranja. Você poderia ir de amarelo ou laranja. Ou até de rosinha bebê! O que acha?!
- Eu acho perfeito! São lindas as cores que você me falou!”
- Ótimo, então nós vamos escolher os vestidos todas juntas! – Laura, mãe de Duffy, disse por fim.
- Bem, há algo mais a ser posto em conversa?! – Joe perguntou.
- Creio que não. Há alguma a ser feita, Jasper?!
- Não. Para mim, o que Duffy escolher, está muito bem escolhido!
O senhor Whitergrey me olhou de uma forma meio estranha, mas então sorriu. Joe também se assustou com minhas palavras, mas todos acabaram abafando algumas risadinhas... Só Cris não foi capaz e continuou sorrindo descaradamente – ela estava muito feliz mesmo por ser a dama de nosso casamento!
- Bem, então creio que seja apenas isso, caro Joe!
- Não! Há mais! – Mary disse assustada.
- E o que é, querida?!
- Onde eles morarão?! Em que... lugar?
- Bem, obviamente que na casa que meus criados estão construindo bem aqui ao lado, entre a nossa casa e a casa dos Whitergrey!
Todos se assustaram... Ninguém havia pensado em onde ficaríamos morando, e muito menos que alguém sabia da construção da casa... E pelo jeito, nem Mary sabia!
- Deus! Estraguei a surpresa! – Joe bateu a mão com força na testa, que fez um grande estalo, e depois começou a massagear as têmporas.
- Joe, que casa? – Mary estava curiosa, mas chateada ao mesmo tempo por não saber da notícia. Mas que culpa tinha ela? Ninguém sabia da casa!
Aliás, ninguém tinha pensado que teríamos que viver em algum lugar depois que casados!!!
Nem eu pensei nisso, confesso!
- Aquela casa que estão construindo aqui perto...
- Mas ela não está em nossas terras!
- Sim, eu sei, mas tomei a liberdade de comprar a terra como presente de casamento a meu filho! Desculpe-me, filho, não quis ser desrespeitoso! – ele disse se virando para mim... Desculpas? Por quê? Ele pensou no que ninguém tinha pensado!
Seria pior se só pensássemos em uma casa assim que a festa do casamento terminasse!
- Não tem porque se desculpar, pai, mas fico extremamente grato por isso!
Ele sorriu, estava contente e orgulhoso.
- Ah, filho... Que bom. Espero que goste de casas de dois andares, Duffy!
- Sim, adoro! – ela disse simpática.
- A decoração interna ficará por minha conta, Joe!
- Não, senhor!
- Claro, Joe. Você paga o casamento, e eu pago a decoração da casa! Duffy, Laura, Mary e Cris podem ajudar com a decoração da casa! – Cris ficou feliz por ter sido incluída entre as que podem ajudar com o serviço!
- Olhe...
- Por mim tudo bem, senhor Whitergrey! – era Mary.
- Por mim também! – era Laura.
- E tenho certeza de que nós duas também estaremos disponíveis para isso! – era Duffy incluindo Cris na conversa, que ficou mais feliz ainda...
- Então, o que posso fazer? – Joe se virou para mim, mas não tive tempo de responder.
- Pode deixar comigo essa parte! Cuidarei de tudo!
Todos entramos nesse acordo, então, a senhora Whitergrey se assustou – e assustou a todos com seu grito.
- Meu Deus, já são oito horas! É tarde, Greg! Precisamos ir embora! Temos de ir amanhã cedinho à cidade para comprar os vestidos!
- Ah, sim, claro! – ele disse desconcertado.
- Mary, você não liga de irmos amanhã, não?!
- Mas é claro que não, Laura. O quanto antes, melhor!
- Claro!
- Então vamos! – o senhor Whitergrey disse, por fim... – Duffy, agradeça a Joe por tudo, querida!
- Senhor Whitlock, muitíssimo obrigada por tudo. O jantar estava maravilhoso!
Assim que eles se despediram – inclusive Cris e Duffy com um abraço e um “nos vemos amanhã de manhãzinha!” – Duffy veio a mim.
- Espero que tenha gostado de tudo do que fora escolhido!
- Tenha certeza que sim, Duffy. É como meu pai fez questão de dizer – eu o agradeceria depois por ter dito isso antes, – tudo o que a senhorita gostar, eu também gosto!
- Então, está tudo bem!
Dei um beijinho em sua mão, e ela tornou a corar. Ela ficava linda assim!
Cumprimentei o senhor e a senhora Whitergrey, e então eles partiram.
Subi correndo para meu quarto, pois queria vê-la de lá da janela de meu quarto.
Chegando lá na janela, consegui ter um vislumbre deles indo embora ainda. Cris foi a meu quarto.
- Você gosta mesmo dela, não é, Jasper?
- Sim, Cris, eu gosto. – Ela ficou tristonha. – Mas não se preocupe, ainda te amarei acima de tudo! Para sempre! E nem vou morar longe daqui!
- Sim, eu sei! – ela deu um sorriso contagiante e então veio me dar um abraço. Aquilo pagou por tudo o que já tínhamos passado antes...
Em breve, eu seria, digamos, um homem por completo! Seria casado com uma bela mulher, dono de uma fazenda, mesmo que no início ainda, e, quem sabe, não viria algum dia a ter filhos? – Mas isso estava só em sonhos, Jasper! Ainda é cedo para se tornar pai!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 6: Whitergrey

[Jasper]
O senhor, a senhora e a senhorita Whitergrey estavam subindo as escadas... Eu estava todo nervoso e engomado na sala a espera deles, enquanto Cris estava emburrada, mas magnífica em seu vestido cor de pêssego, como ela diz – pois para mim essa cor era um rosa misturado com amarelo!
Cris não queria que eu fosse embora, mas não negava que estava curiosa a respeito de Duffy... Por mais que ela não quisesse que eu fosse, ela queria sim conhecê-la, e eu sei que ambas se dariam muito bem juntas...
- Cris, seja boazinha! – sussurrei.
- Seu chato!
- Cris...
- Tudo bem! – ela fez um biquinho.
Eu estava rindo da reação de Cris quando a porta finalmente se abriu e mostrou o senhor Whitergrey. Logo após estavam a senhora Whitergrey e Duffy.
O senhor Whitergrey veio até mim sorridente.
- Mas que honra vê-lo, rapaz... Soube que você esteve muito doente, e apenas por isso saiu do exército! – ele me cumprimentou.
- Sim, esta foi uma das razões...
- E quais foram as outras? Eu poderia saber?
- Sim. Eu estava com medo de que Cris não se adaptasse muito bem aqui sozinha... Fiquei nervoso, e então como eu já estava mal e desorientado, consegui com muito esforço retornar à casa!
- Mas que coragem, meu rapaz... É de rapazes como você que precisamos nesse mundo! Precisamos de jovens corajosos como você para lutar pelo nosso ideal!
- Sim, claro – meu pai nos interrompeu, – mas esse jovem não vai mais à guerra, senhor Whitergrey! Ele recebeu ordens médicas que deve continuar em casa para que a doença não retorne!
- Está impossibilitado de trabalhar também?!
- Não, isso ele pode fazer. O problema mesmo se encontra com a umidade das trincheiras, os barulhos altos e o árduo esforço físico e mental que ele tinha de fazer!
- Sim, sim... Soube também que ele foi Major!
- Sim, foi sim, mas infelizmente teve de sair de lá! Se continuasse, quem sabe não seria em breve um general, ou até um marechal?! – meu pai estava sendo exagerado em seus elogios, mas o senhor Whitergrey parecia aprovar tudo aquilo...
Então, tudo bem!
- E essa menininha então é a Cris?! – ele foi até ela e deu uns beliscões de leve em sua bochecha, que ficou rapidamente corada.
- Sim, senhor. Esta é minha filha adotiva. Jasper a trouxe do Norte de Galveston, ilha onde ele estava servindo! Ela estava perdida e sem família, então quando Jasper conseguiu retornar, a trouxe junto para ficar conosco!
- Sim, sim... Eu também soube dessas histórias! Muito agraciada você, heim, menininha!
- Sim, senhor... – ela respondeu, mas eu percebia um tom de sarcasmo em sua voz... Ela não tinha gostado de ser chamada de “menininha”, e muito menos dos beliscões em sua face...
[Cris]
Papai que me perdoe, mas o senhor Whitergrey era louco. Ele me dá uns beliscões muitos doídos em minha face e depois fica sorrindo com cara de palhaço para mim... Ele acha que eu tenho quantos anos? Cinco?
Aff... Eu odeio essas coisas, mas por Jasper eu aguentaria!
Só por Jasper...
[Jasper]
Foi só então que reparei quem estava adentrando no cômodo. Duffy!
Ela estava linda em um vestido azul marinho de seda, que tinha algumas rendas brancas que brilhavam... Cris havia me contado que aquela cor se chamava branco pérola!
É, acho que meninas gostam de coisas que brilham mesmo... Eu já tinha reparado nisso com Cris!
Seu cabelo estava todo preso em uma trança lateral, e na ponta havia alguns cachos. Mas, seu cabelo não era liso?
Ok, esquece! Mulheres fazem coisas que nunca entenderei!
Ela estava realmente linda, e então seu pai, o senhor Whitergrey veio para nos apresentar – creio que ele tivesse se esquecido que já nos conhecíamos...
- Jasper, esta é minha filha...
- Já sei papai, não seja bobo! Conheço o Jasper, não se lembra?! – ela disse em tom de ofensa.
- Ah, sim... É verdade! – ele disse envergonhado, e então saiu de canto.
Fui até ela e a cumprimentei com um beijinho na palma de sua mão. Ela ficou corada com meu ato, e até deu um suspiro... Nesse momento ouvi Cris fazer algum barulho, mas não percebi que o era... Só entendi quando olhei para o lado e vi Mary repreendendo Cris silenciosamente...
Ela devia ter feito alguma careta! Só pode!
Voltei minha atenção para Duffy.
- Boa noite!
- Muitíssima boa, Jasper!
- É uma honra recebê-la para este jantar!
- É muito bom mesmo estar perto de ti novamente...
Cris fez outro barulho, então não pude deixar de agir desta vez.
- Duffy, esta é Cristina, minha irmã, mas nós só a chamamos de Cris!
Duffy andou delicadamente até Cris e então abaixou um pouco para chegar à estatura de Cris.
- Muito prazer, senhorita Cris!
- Ah... Oi! – Cris disse envergonhada – creio que ela não esperava que Duffy fosse tão simpática assim...
- Cris, modos! – Mary a corrigiu, mas Duffy apenas riu.
- Tudo bem, senhora Whitlock! Ela é uma gracinha!
Duffy brincou com as pontas do cabelo de Cris e então a segurou pelo queixo de leve. Cris se envergonhou mais ainda.
- O que foi, querida?! – Duffy sussurrou para Cris.
- A senhorita é muito bonita e simpática, senhorita Whitergrey!
- Own... Que graça de menina! Muito obrigada, querida, mas pode me chamar apenas de Duffy, ok?!
- Ok, senho... Duffy! E pode me chamar de Cris, também!
- Ok, Cris. Seremos boas amigas! Tenho certeza disso!
- Sim, sim... Seremos! – ok, eu realmente não compreendia as mulheres... Cris, até poucos segundos, estava fazendo caretas, mas agora já estava se familiarizando com Duffy...
Não que eu esteja reclamando – até porque eu acho perfeito as duas se darem bem – mas elas mudam tão rapidamente! Como é que eu vou acompanhar os assuntos de Duffy ou seus estados de humor quando estivermos casados?
Comecei a me preocupar, mas fui interrompido pela doce fala de Duffy!
- Adorei seu vestido! A cor é tão bonita!
- Sim, é sim! Fui eu mesma quem escolheu a cor! Só mamãe escolheu o modelo, mas a cor fui eu quem escolhi!
- Pois então saiba que você tem um ótimo gosto! É muito refinado!
Cris deu um sorrisinho e então me olhou de canto com aquele olhar: “O que você disse antes sobre a cor do meu vestido, mesmo?!”
[Cris]
Finalmente conheci a senhorita Duffy, que prefere que eu a chame apenas de Duffy!
Sabe, no começo até achei nojento o que Jasper estava fazendo com ela! Até cheguei a sentir dó da pobre moça, mas percebi que ela estava gostando... Aff... Esses adultos...
E o Jasper, coitado, nunca o vi tão perdido como acabei de ver! Ele estava agindo como um bobo! Ficava sorrindo sem ninguém lhe contar alguma piada! Duffy também agia da mesma forma, mas... Se você quer saber, eu até que gostei dela!
E do vestido dela também! E de sua trança também! Mais tarde eu a perguntaria onde ela comprou o vestido e quem lhe fez a trança!
Mamãe então veio até mim e me puxou de canto... Lá vem bronca!
[Jasper]
Mary puxou Cris para a cozinha, e por sua cara, eu podia afirmar facilmente que ela iria levar um belo puxão de orelha. Fiz cara feia para ela, pois mesmo que Cris fosse considerada a filha de minha mãe e minha irmã, eu ainda cumpria a minha promessa de sempre protegê-la!
Mary retribuiu o meu olhar, mas percebi que ela não iria falar muito! Estávamos com visitas, e era uma questão de educação ficar junto deles em nossa casa!
- Então, Duffy, quer se sentar?! – ofereci o sofá a ela.
- Sim, sim...
Nos sentamos no sofá mais distante do que meu pai e o pai dela estavam sentados conversando. A senhora Whitergrey estava sentado ao lado de seu marido, mas logo minha mãe chegou para lhe fazer companhia.
Todos conversavam, menos Cris que voltara da cozinha com a cara amarrada. Sim, ela havia levado uma bronca, pelo menos...
- Então, como foi o exército?! – ela me perguntou.
- Bem, foi difícil... A vida lá não é mole! Tínhamos de acordar muito cedo, arrumar as nossas coisas e ajudar com os afazeres da base! Havia muita coisa a se fazer, e muitas vezes, eles eram serviços árduos!
- O que eram esses serviços? – ela ficou curiosa.
Ok, agora eu teria de aumentar um pouco a realidade para surpreendê-la!
- Bem, quando eu era apenas um soldado, eu fazia de tudo! Carregava as armas, as munições e os demais equipamentos, fazia a limpeza minuciosa de cada um deles...
- Meu Deus, e você não tinha medo de se ferir?! – ela se assustou, até levou a mão à boca – eu sabia que falar de armas era algo que surpreendia as mulheres...
- Não, nós recebemos treinamentos para batalhar.
- E o que tinha nesse treinamento?
- Nós aprendíamos a montar, limpar, carregar e atirar com uma arma. Nós tínhamos treinamento com vários tipos de armas, mas nunca tive algum medo, pois todos éramos supervisionados e tínhamos o apoio de um tenente por perto para que não saíssemos matando a todos!
Ela riu, e eu não pude deixar de rir também. O seu sorriso era contagiante!
- Você aprendeu a atirar? Você já... Sabe... Enfim...
- Sei, sei... Eu aprendi a atirar, e já tive sim de entrar em confrontos... Na maior parte das vezes não precisei usar a arma, pois eu bolava planos estratégicos em minha mente para que saíssemos bem, e o inimigo ficasse na pior!
- E davam certo?!
- Sim, todos deram!
- Nossa! Que magnífico isso! Você é tão corajoso! – ok, se eu já estava me derretendo por estar sentado ao seu lado, imagine então por estas palavras terem saído de sua boca!
- Obrigado.
Ficamos nos encarando por algum tempo, e então Cris resolveu nos lembrar que ela estava lá. Ela espirrou duas vezes seguidas, e o terceiro aparentou vir engasgado com uma tosse.
Aquilo foi tão engraçado que todos pararam de conversar para rir olhando para ela. Cris ficou tão chateada que amarrou ainda mais a expressão, fez um biquinho e cruzou os braços.
- Cris, filha, tenha modos! – Mary tentou fazer com que ela mudasse, mas era difícil quando Cris chegava nesse nível de “braços cruzados”.
Resolvi tentar.
- Cris, quer se sentar aqui perto de nós dois?
- Mas o sofá de vocês só cabe dois!
- E é por isso mesmo que temos aquelas banquetas. O que acha, Duffy?!
- Adorável... Eu queria mesmo conversar com você sobre seu vestido!
Duffy acabou me ajudando a ganhar do nível “braços cruzados”. Cris abriu um sorriso impagável – dava até vontade de rir junto dela – e então foi correndo no outro canto da sala para pegar a banquetinha.
Nesse meio tempo, olhei para Duffy e respondi meio sem graça.
- Obrigado!
- Não há de quê! Eu queria mesmo conversar sobre seu vestido!
Rimos um pouco até que Cris chegou toda contente, e quase que caiu de tanta felicidade ao se sentar toda estabanada. Duffy e Cris riram um pouco juntas, mas então, quando as duas perceberam que eu estava com uma expressão de “Cuidado, Cris!”, as duas desataram a gargalhar de vez!!!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 5: Terno

[Jasper]
Fazia um lindo dia. O sol brilhava, os pássaros cantavam, Mary estava ensinando a Cris tocar piano e a cantar...
Tudo estava na mais perfeita sintonia!
Joe abriu a porta de uma forma imponente. Sua face severa me dizia que eu tinha de trabalhar muito mais hoje do que os dias anteriores...
- Eu sei, eu sei, estou atrasado!
- Não, na verdade, você não está atrasado!
Ok, agora não entendi!
- Não?!
- Não!
- Então...
- Hoje vamos comprar um terno novo para você!
- Terno?! – eu odiava ternos!
- Sim, um terno, nem que ele seja de brim, mas você não voltará para casa sem um terno!
- Então eu acho que preciso começar a arrumar minhas coisas, dizer “tchau” para mamãe...
- Jasper, sem brincadeiras! Hoje à noite teremos um jantar em nossa casa e você tem de estar apresentável!
- Jantar?!
- Sim, jantar!
- E por que motivos eu tenho de estar “apresentável”?!
- Porque os Whitergrey viram aqui hoje de noite!
- Os Whitergrey?! – da última vez, a visita deles não foi muito “amistosa”!
- Sim, eu sei que você pensa que eu irei estragar tudo de novo, mas lhe prometo que não!
- Bem, não era exatamente nisso em que eu estava pensando! – e sim na briga entre meu pai e o senhor Whitergrey.
- Ahh, já sei no que estava pensando!
- Ahnn... Sabe?!
- Sim, mas é claro! Estava pensando na adorável senhorita Whitergrey!
- Na verdade, eu estava pensando na briga do senhor com o senhor Whitergrey!
- É, bem... Eu já disse que não vou estragar tudo desta vez!
- Mas, eu posso saber o motivo da visita?!
- É que a senhorita Whitergrey não quis se casar com nenhum dos quatro pretendentes que o senhor Whitergrey havia arranjado para ela!
- E...
- E ela disse que queria passar um tempo com você!
- Bem, então poderia ser um almoço, é menos...
- Menos comprometido, eu sei, mas eu prefiro que seja um jantar... Assim, pelo menos, vocês poderão conversar um pouco, enquanto o senhor Whitergrey e eu conversamos sobre a cerimônia.
Como é que é?!
- Cerimônia?! – me engasguei.
- Bem, você não tinha gostado dela?!
- Bem, sim, mas...
- E ela não tinha gostado de você?!
- Sim, mas...
- Então está tudo certo! Hoje à noite, jantaremos com os Whitergrey para acertar o seu noivado! Está tudo bem?!
- E eu tenho alternativa?!
- O que foi que disse?!
- Ah, não, nada! – dei um sorrisinho amarelo.
Joe saiu de meu quarto e me deixou só com meus pensamentos. Deus, eu iria me casar! E com a senhorita Whitergrey... A Duffy... Ela era linda!
Sabe... Até não estou achando ruim a ideia de me casar com Duffy... Eu só esperava realmente que meu pai não brigasse novamente.
[Cris]
Jasper vai ter de se casar, e Joe já disse à mamãe que eu teria de me casar também em breve... Mas eu não queria, então, como mamãe já sabia disso, ela me defendeu e disse que eu só me casaria quando eu estivesse pronta!
Mamãe era legal... Muito legal!!!
Mas ele não vai conseguir escapar... Ele já tem dezoito anos, e já faz mais de um ano que ele voltou! Ele não tem mais desculpas...
Todos acreditaram firmemente que o doutor Williams curou Jasper de sua pneumonia e das outras doenças de verdade, e todos ficaram felizes em saber disso. E o exército nem veio atrás dele... Apesar de que, pensando bem, creio que nem sabem que ele está bem...
Meu irmaozão desceu as escadas meio nervoso..
- Jasper, está tudo bem?!
- Eu... err... Sim, está tudo bem!
- É por causa do casamento?
- Deus, todo mundo já sabia dos planos, menos eu?!
- Vem cá... – sussurrei, e ele veio para mais perto. – Eu escutei mamãe e papai conversando ontem de noite!
- E o que você ouviu?!
- Que eles não querem demorar, e que a moça lá...
- Duffy!” ele me corrigiu
- É, ela gosta muito de você. Tanto que até escreveu de você em um livrinho dela, e ela também desenhou uns coraçõezinhos ao lado de seu nome!
Ele ficou apenas me olhando meio assustado, meio feliz... Eu não entendia meu irmão de vez em quando... Ele era tão estranho às vezes...
- E o que mais?! – agora ele estava ansioso e meio feliz.
- Ah... Deixe-me pensar!”
Comecei a repassar toda a conversa na minha cabeça de novo...
- Bem, eles queriam que vocês se casassem logo!
- Só isso?
- Sim...
- O quanto é o “logo” deles? Você sabe?!
- Perguntei pra mamãe hoje antes dela sair do piano, e ela disse que queria que vocês se casassem no fim do mês!
- Mas já estamos no dia oito! – agora ele estava nervoso de novo. – Mais alguma coisa?
- Não... Só que mamãe ia me levar em uma mulher que costura muitos vestidos para comprar um vestido da cor que a moça...
- Duffy... – agora ele estava perdendo a paciência.
- É, a Duffy... O meu vestido vai ser da cor que a Duffy escolher!
- Ahn... Obrigado boneca!
Meu irmão me deu um beijinho na testa e deu umas batidinhas em minha cabeça. Isso fez com que meu cabelo se espalhasse em cima da minha fita branca!
Jasper era um chato de vez em quando também... Principalmente quando ele bagunçava meu cabelo! Mas isso teria volta!
[Jasper]
Cris era uma boa menina... Só era má quando eu desarrumava seu cabelo. E eu adorava atormentá-la... Bagunçar seu cabelo era um dos meus passatempos favoritos...
O problema é que depois ela me fazia sentar no chão da sala com ela e ficar penteando seu cabelo de novo! Deus, por que é que minha mãe a criou dessa forma?
Quando a encontrei, ela não era tão vaidosa assim!
Minha mãe criou um monstro... Ou melhor, uma monstrinha!
Mas era uma monstrinha que eu amava muito. Eu era seu irmaozão, e ela era minha irmãzinha! Eu a protegia, e ela apenas me agradecia com seu enorme e contagiante sorriso!
O problema de tudo é que eu estava feliz por me casar, mas percebi que Cris estava com ciúmes... Ela não queria que eu me casasse, que saísse daqui de casa!
Ela tenta esconder a todo custo isso, mas não consegue! Eu a conheço bem demais para que ela me engane de uma forma tão fraca assim...
Mas eu respeitava o seu sentimento por mim... Eu a amava também, e mesmo que eu me casasse, eu nunca deixaria de amar a minha irmãzinha!
Eu só precisava encontrar um jeito de fazer com que ela compreendesse isso!
Peguei algumas frutas para comer, e então Joe gritou para mim de lá de fora. Ele queria ir já! Agora!
Me acomodei na carroça, e então fui comendo-as no caminho.
Chegamos à cidade.
- Para onde, senhor?! – o nosso condutor perguntou ao meu pai.
- Vá direto ao Men’s Order!
- Sim, senhor!
Pouquíssimo tempo depois, paramos em frente a uma loja aparentando ser bem grande. Sim, era a alfaiataria mais visitada mais cidade. E cá estou eu, sendo mais um dos milhares que vem sempre para a compra de mais um terno!
Entramos e logo fomos recebidos.
- Bom dia! – um senhor veio até nós.
- Bom dia, meu caro rapaz! Meu filho precisa de um terno para um jantar à noite!
- Hmm... Um evento muito especial! – eu odiava quando meu pai marcava eventos à noite, pois todos sabiam que era “especial”! – Qual seu número, jovem?!
- Ah... não sei.
- Bem, então me acompanhe, por favor!
Passamos por várias peças expostas, subimos algumas escadas, entramos em algumas salas até que chegamos a uma sala vazia – a não ser por uma mesinha com algumas peças em cima e um grande espelho.
O senhor pegou uma fita de medidas, e então começou a tirá-las.
- Seu número é o oito, jovem. – Ele anotou em um caderninho, e então fez sinal para que fossemos junto dele.
Voltamos à entrada, onde estavam os ternos.
- Para a noite, eu suponho que seja aconselhável uma cor escura!
Meu pai concordou com ele – aliás, concordava com tudo o que ele fazia. Não dizia nada, mas apenas balançava positivamente a cabeça. Isto estava me irritando!
- Qual é a ocasião?!
- Esta noite, será o jantar do noivado de meu filho! – meu pai disse orgulhoso, mas eu estava começando a ficar enjoado com tudo isso... Eu não pensei que casar seria tão cansativo, e olha que eu nem noivei ainda!
- Ah, sim, mas que maravilha! Meus parabéns, jovem! – ele me cumprimentou.
- Obrigado! - retribui o aperto de mão.
- Então tem de ser mais especial ainda! – sim, agora eu realmente odiava não só a meu pai, mas o vendedor também por falar tão alto as coisas... – Este é um terno de linho importado. O caimento será perfeito. O que pensa dele?!”
- Está bom... Posso provar?
- Mas é claro. Me sigam, por favor!
Fomos à outra sala. Provei o terno e me senti sufocado... Mas qual era a diferença? Eu sempre me sentia sufocado com ternos!
- Então, Jasper?!
- Esse está bom!
- Então será esse!
Tirei o terno e entreguei ao vendedor. Ele o dobrou e o pôs delicadamente em uma caixa, e depois me entregou. Meu pai pagou pelo terno e então saímos...
Eu nem prestei atenção em tudo o que aconteceu... A única coisa que eu conseguia pensar era: em breve, eu estaria noivo e me casando com a linda Duffy!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 4: Tenente

[Joe]
Alguns dias se passaram desde que Jasper finalmente retornou para casa. Desde então, paz e felicidade reinam em nossa morada.
E está sendo uma benção tê-lo bem por perto. Estou com alguns problemas com o gado, e como nosso quintal é amplo, o que se torna impossível alguém ver quem está lá atrás, aproveitei para pedir para que ele me ajude.
Aproveitei também para lhe ensinar coisas sobre o cultivo de milho e cuidado com o gado, que já é tradição na família.
Ele está se tornando um ótimo vaqueiro, e se dá muito com os animais.
Já com a plantação... Bem, ele não pode ser perfeito em tudo, não é?!
Quatro dias após Jasper aparecer em casa, um tenente pôs uma nota no jornal a sua procura. Enviei outra nota afirmando que ele estava enfermo, e em péssimas condições, mas não sei se acreditaram realmente.
Por isso mesmo, estou aqui em frente a base militar de Houston, na beira da estrada para entregar ao tenente ou a quem quer que seja a receita médica de meu filho.
Eu esperava firmemente que eles acreditassem e nunca mais fossem atrás de meu filho, mas eu sabia que ainda havia chances de ele ser obrigado a voltar...
Mas, aconteça o que acontecer, ele não voltaria! Eu não deixaria que meu moleque se fosse novamente! Eu pagaria o quanto fosse preciso para que ele não volte nunca mais!
Mary, pobre coitada, ficou tão nervosa pela manhã ao saber que eu iria entregar a receita médica na base, que se molhou toda de café... Ela tremia tanto... A última vez que a vi daquele jeito foi quando ela havia terminado de ler a carta de Jasper...
Mas desta vez eu não permitiria que ele voltasse... Não mesmo!
Dois homens estavam guardando uma porta grande.
- Bom dia, cavalheiros!
- Bom dia, senhor! – ambos me responderam.
- Bom, eu gostaria de saber com quem é que eu posso falar sobre o estado de saúde de um soldado?
O mais alto respondeu inflexível.
- O senhor não pode entrar!
Ah, eu iria entrar sim, senhor!
- Você sabe com quem está falando, seu moleque mau criado?! – ele abaixou a cabeça em respeito.
- Não, senhor!
- Pois então saiba que eu sou um Whitlock. Uma das famílias mais ricas de Houston. Fui eu quem doou dinheiro para construção de bases, porque eu sabia que meu filho estava na guerra! Portanto, se você está aqui no bem-bom, é porque eu deixei que ficasse! Então, se eu quiser entrar, eu vou entrar!
Os dois ficaram encarando o chão envergonhados, mas não responderam nada.
- E então? Posso ou não entrar?
- Trucker, acompanhe o cavalheiro até a sala do tenente Radiers, por favor! – o mais alto mandou.
- Sim, senhor... – ele respondeu enquanto o mais alto abria o portão gigantesco. – Por favor, me acompanhe!
Fui junto dele até uma pequena salinha. O soldado bateu na porta duas vezes, e então ela se abriu.
- O que é desta vez?
- O senhor...
- Whitlock – completei – o homem de dentro da sala se assustou.
- O senhor Whitlock veio tratar do assunto da saúde de um soldado, tenente!
- Ok, pode voltar ao serviço soldado. – O soldadinho voltou para a entrada. – Entre, por favor!
Entrei em sua sala, e percebi que ela era ainda menor por dentro do que vista por fora.
- Senhor Whitlock, a que devo as honras?!
- Você sabe muito bem!
- Bem... – ele pareceu ficar confuso.
- Meu filho, Jasper Whitlock, é Major na base de Galveston, mas está severamente enfermo, e não pode mais voltar ao serviço militar!
- Bem, poderíamos então mandar médicos e enfermeiros para cuidar dele para que ele se cure o quanto antes!
- Ele não tem como voltar!
- Como não? O que aconteceu?!
- Pegou pneumonia, e está realmente muito enfermo. O coitado não pode nem sair do quarto!
- Nossa, mas ele não estava assim quando saiu daqui... Pelo menos, quando eu conversei com os soldados que vieram com ele, eles me disseram que ele estava bem...
- Só aparentava estar bem...
- É, deve ser... Um soldado que se dizia ser amigo dele disse que ele estava realmente estranho, mas nada de enfermidade, doença...
- É como eu disse, senhor, ele só aparentava estar bem, mas na verdade não estava!
- Ele está com o senhor?!
- Sim, está em nossa residência!
- Ele esteve perdido por um tempo, não?! Não tivemos nenhuma notícia de seu paradeiro até que o tenente de Galveston mandou uma nota a procura dele, e então o senhor a respondeu.
- É, bem... Ele diz que se perdeu no caminho e que até foi atacado pelos inimigos, mas conseguiu vencê-los! – é óbvio que eu não taxaria meu filho de covarde!
- Verdade? Onde foi que isso aconteceu?!
- Ele não se lembra ao certo, mas disse que foi no caminho a Galveston... Quase chegando lá...
- Quantos foram?
- Ele me contou que era de noite e estava muito escuro, e que ele utilizou isso a seu favor, mas que conseguiu enfrentar pelo menos cinco e vencê-los!
- Se o senhor me permite, eu gostaria de enviar as notícias para o tenente de Galveston...
- Sim, claro! Disponha!
Ele começou a escrever rapidamente, e então parou para me olhar novamente.
- E como foi que ele voltou a Houston?
- Ele ficou perdido no deserto, mas conseguiu sair de lá. Ele foi parando em cada cidade à noite mesmo para encontrar apoio, até que finalmente ele chegou em casa justamente na manhã seguinte!
- Deus, que viagem que ele fez!
- Sim, que viagem perigosa, isso sim! Ficar andando pela noite deve ter piorado em muito seu estado...
- Sim, deve ser... À noite pegamos sereno...
- Sim, e isso piorou seu estado. Agravou a sua doença...
- Concordo!
Ele retornou a escrever.
- Eu gostaria de vê-lo, se possível!
- Creio que não seja, me perdoe! Ele está muito enfermo mesmo, e o doutor pediu para que ninguém fosse atormentá-lo! Ele precisa de descanso completo, sem visitas ou interrupções em seu sono!
- O que ele tem?
- O doutor de nossa família disse que ele está com pneumonia, mas está com algo a mais, já que está com sintomas a mais do que simplesmente pneumonia!
- Deus, coitado!
- Sim, ele está realmente enfermo... Está tão fraco que mal consegue se levantar da cama!
- Ohhh... – se ele estava acreditando mesmo, eu não sabia, mas eu tinha certeza, pelo menos, de que ele estava morrendo de dó por meu filho!
- Imagine só, minha mulher e empregadas estão todas disponíveis apenas para ele! Elas estão se ocupando apenas em mantê-lo bem, e isso é o que importa!
- Sim, sim, com certeza, senhor Whitlock!
- Então eu gostaria de saber uma coisa, tenente...
- Radiers...
- Tenente Radiers, eu gostaria que o senhor me tirasse algumas dúvidas...
- Sim, pode dizer senhor Whitlock!
- Meu filho está livre do exército, então?!
- Bem, creio que sim... Se seu estado está tão ruim assim, como o senhor mesmo me detalhou, é melhor que ele não venha mesmo para o exército! Caso contrário, ele pode nos dar prejuízos, e neste momento, prejuízo é o que estamos tentando não ter!
Vitória!!!
- Bem, então lhe trouxe aqui a receita médica do doutor Williams, o médico de nossa família!
- Ah, ok, obrigado.
Ele pegou a folha e começou a ler.
- Bem, compreendo a sua situação, senhor Whitlock, e deu filho também! Se o senhor me permite, encaminharei esta minha carta a Galveston com esta receita. Tem problemas?
- Claro que não. Trouxe-a justamente para comprovar que meu filho está realmente impossibilitado de realizar qualquer tipo de atividade!
- Ok, então...
Ele dobrou o papel que estava escrevendo e colocou em um envelope. Em seguida, dobrou a receita do doutor e colocou junto de sua carta. Ele pingou algumas gotas de uma vela ali da mesa, e então pressionou com um selador.
A imagem ali gravada foi a do símbolo da Confederação, um pequeno quadrado com duas faixas cruzando cheia de estrelas, e uma grande faixa ao lado. Ele repetiu o mesmo processo para selar mais duas vezes.
Ele percebeu que eu o olhava, então resolveu se explicar.
- Selo três vezes para que nada escape daqui!
- Ah, sim... Proteção nunca é demais! – mas desta forma, ninguém mesmo vai ler o que está ali dentro... Inclusive o indivíduo que receberá a carta!
Ele chamou um dos soldados que estavam lá fora para pegar a carta, e então o mandou pegar um cavalo e ir direto a Galveston sem paradas, se possível!
- Bom, então que mais posso fazer pelo senhor?
- Creio que seja só isso mesmo. Muito obrigado, tenente Radiers!
- Eu é que agradeço por ter gasto seu tempo para nos explicar a situação, senhor Whitlock. Sou grato ao senhor por isso... Muitíssimo obrigado!
- Obrigado. Até mais!
- Até!
Nos cumprimentamos e então dei as costas para ele. Fui de volta a carroça, e então tomei rumo ao centro da cidade... Eu precisava estar em um leilão para a compra de mais algumas cabeças de gado para nossa fazenda!
[Jasper]
Meu pai estava demorando, mas isso só podia significar que ele tinha conseguido o que queria... E o que eu queria também: não sair de casa novamente!
Ainda hoje ele tinha de ir a um leilão para a compra de mais algumas cabeças de gado para nós, e eu até estava confiante... Eu queria ir junto dele, mas não podia por estar supostamente “enfermo” de pneumonia!
Enquanto esperava a sua volta, fiquei apenas sentado lendo um pouco de jornal.
O tempo que eu fiquei na guerra, eu tinha me desligado completamente do que acontecia no país ou no mundo. Pelo menos, agora com o jornal, eu poderia me reeducar a viver em sociedade novamente!
E por falar em educar, minha mãe estava ensinando Cris a costurar – ou seria bordar – alguns lencinhos de rosto. Ela estava adorando a ideia, e cada vez que terminava um desenho – um entre os milhões de rosas já terminadas – ela vinha me mostrar toda orgulhosa.
Até já fez um lencinho bordado para mim com as minhas iniciais “J” e “W”!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 3: Doutor

[Jasper]
Ficamos lá sentados, com a bagunça toda nos rodeando.
- Você estava muito ocupado, não é?!
- Bem... Mais ou menos...
- É, eu percebi...
- Eu estava tentando concertar essa lamparina, mas a saída do querosene não está sendo o suficiente...
- Então aumente o buraco!
- Não é tão simples assim... Se eu aumentar demais, a lamparina explode com o calor, se eu não aumentar muito o tamanho, o fogo não se acende!
- Então por que a vovó não compra um novo?
- É, bem, seria mais fácil, mas sua avó gosta de judiar de seu genro!
Rimos algum tempo juntos, e então arregacei as mangas. Quanto antes meu pai terminasse o serviço aqui, antes chegaríamos em casa.
Um troca-troca de ferramentas se iniciou. Enquanto eu pegava uma para desrosquear algo, ele pegava outra para abrir e mexer, e depois eu pegava outra para fechar. Assim foi até que terminamos com os objetos em pouco mais de meia hora!
- Ufa... Que bom que você veio aqui, heim filho!
- É, agora podemos ir embora o quanto antes... Se não mamãe irá nos matar por ter demorado!
- Ah, claro que não!
- Sim, matará sim, por que eu disse que voltaria e ela ficou preocupada pensando que eu não voltaria!
- Nossa...
- Aposto que ela não dormiu só para ver que você está voltando comigo!
- Deus, então por que não me disse isso antes... Assim teríamos adiantado o serviço!
- Bem, você não perguntou! – disse brincando. A relação pai-filho se fortificou hoje, e eu tinha certeza de que poderia brincar hoje... Pelo menos hoje, eu sabia que podia... Mas só hoje eu sabia...
- Ok, então pegue uma vassoura e limpe a bagunça no chão enquanto eu arrumo a bagunça de cima das mesas!
Peguei a vassoura e comecei a varrer desajeitadamente – esse negócio de varrer não era comigo!
Assim que eu terminava de varrer, eu olhava e via mais um monte de sujeira – eu era realmente ruim nessa coisa de varrer...
Após apanhar feio da vassoura e da sujeira insistente no chão, acabamos que por sair de fininho pela portinha lateral e ir em direção aos nossos cavalos.
Montamos e então partimos rumo à nossa casa.
Chegamos, e até dei a ideia de entrar sem fazer barulho, mas a delicadeza de meu pai era superior ao silêncio, e então ele subiu as escadas da frente de casa fazendo o maior tropé.
Antes mesmo que pudéssemos chegar ao último degrau, Mary já tinha escancarado a porta da frente de uma só vez. Ela estava assustada a primeira vista, mas quando me viu, relaxou – até suspirou.
- Acalme-se Mary... Você realmente achava que eu iria deixar nosso filho fugir de nós outra vez?
- Bem... Isso não depende você! Ele é muito capaz de sair, ele já é um homem adulto!
- Homem e Major...
- Sim, fiquei sabendo...
Mary e Joe estavam orgulhosos de mim... Eu até fiquei feliz com isso!
- Então, podemos entrar querida?!
- Claro, venham... Eu mesma preparei um maravilhoso café da manhã com café, suco e torradas!
- Hmmm... Você sempre adivinha a minha fome!
Entramos rindo e percebi que Cris não estava mais no sofá.
- Sim, levei Cris para o quarto. Ela está dormindo como um anjinho!
Sorri com isso, então preferi subir para dar uma olhadinha nela.
- Nem pense nisso, Jasper! Ela está dormindo, não vá incomodá-la!
- Mas nem uma olhadinha?!
- Não!
- Eu vou devagar!
- Nem pensar!
- Mas eu consigo chegar devagar sem fazer barulho! Joe é quem não consegue!
- Heiii!!! – ele se ofendeu...
- Jasper, vá para a cozinha e sem mais!
-Ok – desisti de ser teimoso – eu não era bom com isso. Desci o único degrau que eu tinha subido e fui em direção a cozinha.
Chegando lá...
Que café da manhã!
Torradas, manteiga caseira, pão quentinho, maçãs, laranjas, suco de abacaxi, doce de abóbora, doce de mamão, salada de frutas e café!
Que café!!!
Me empanturrei de tanto comer. Olhei para o lado, e vi que eu não era o único a virar uma bola de tanto comer! Joe sempre foi bom de garfo!
Deixamos a cozinha e então pude subir para o meu quarto. Só quando cheguei lá é que me lembrei que Cris estava em minha cama, então puxei o fino colchão que eu mantinha debaixo de minha cama.
Me acomodei. O colchãozinho estava todo empoeirado, mas eu estava tão cansado que acabei dormindo lá mesmo, sem edredom, sem lençol, sem nada!
Simplesmente, capotei...
[Joe]
Eu estava cansado, mas tinha muitos afazeres. Tinha de ver a compra de mais terrenos e mais cabeças de gado, e isso já tomaria muito tempo de meu dia, mas o mais importante seria a visita ao médico!
Isso era essencial!
Jasper tinha subido para descansar. Ele estava tão cansado, podíamos ver isso em suas pálpebras caindo de cansaço. Mary também subiu para descansar.
O resto da casa estava trabalhando, inclusive eu!
Chamei um dos nossos escravos e pedi para que Le me levasse ao doutor Williams. Por segurança, estava levando alguns artefatos em ouro para ter a certeza de que sairia de lá com a certeza de que meu filho não retornaria de qualquer jeito ao exército!
Cheguei lá e então já fui entrando em seu consultório. A secretária pediu para que eu esperasse algum tempo até que o doutor terminasse a consulta de outro paciente.
Fiquei sentado em uma das cadeiras confortáveis na sala à espera do doutor.
Pouco tempo depois, a porta se abriu e um senhor saiu da sala. Levantei-me com a pressa de encontrá-lo, mas não foi preciso, pois ele já vinha ao meu encontro.
- Senhor Whitlock, a que devo a honra de sua presença?!
- Preciso de um favor!
- Sim, sim. Entre, por favor!
Em sua sala, fui direto ao assunto.
- Meu filho voltou da Guerra, e preciso de algo que faça com que o exército esqueça-se dele!
-Hmmm... Jasper está de volta? Mas que maravilha!
- Sim, é mesmo! Mary está tão feliz...
- E o senhor também, pelo que percebi!
- Sim, estou, e é por isso mesmo que estou procurando meios para fazer com que o exército se esqueça dele!
- Ok, e pretende fazer o que?
- Lepra? Pneumonia? Ataque do coração? Doença nos órgãos internos desconhecida? O que prefere?
- Acho que... E Jasper? O que ele acha?
- Só lepra que ele ficou com nojo...
- E o resto?!
- Ele não sabe do resto ainda... Só de pneumonia.
- Bem, então será pneumonia!
- O que é preciso para conseguir esta... receita?!
- Como o senhor é meu amigo, posso dizer que custará apenas quinhentos dólares.
- Ok, então isso paga!
Retirei da bolsinha uma Pedrita de ouro, que o doutor ficou encarando-a assustado. Ninguém aqui na região tinha ouro, mas eu tinha, pois foi esse o pagamento que recebi por algumas cabeças recentemente.
- Claro que paga, senhor Whitlock!
- Então comece a prescrever toda a receita médica, doutor.
Ele pegou a folhinha e começou a escrever rapidamente. Por fim, ele me entregou. Logo após dar uma conferida, o entreguei o ouro.
- O senhor não acha melhor que eu vá em sua casa, senhor?! Assim, podemos manter a farsa com maior credibilidade! Ninguém irá falar que é mentira, pois eles saberão que fui realmente visitá-lo!
- E quanto a esta visita?!
- Poderão pensar que o senhor veio pedir ajuda a seu filho!
- Bem, é uma ótima ideia – realmente é
- Sim, eu mesmo pedirei para que a senhorita Yank diga para os que perguntarem que seu filho está muito doente em casa...
- Sabe, esta é uma ótima ideia mesmo!
- Sim, ou então posso pedir para que ela finja que está escrevendo uma carta e não consegue escrever sem falar, sabe... Repetir o que escreve. E na carta ela escreve sobre o filho do senhor que está de volta em casa, mas está muito doente!
- E dará certo?!
- Bem, creio que sim. Todos que vem aqui são da alta sociedade, e o que é falado sempre percorre rápido na cidade, não?!
- Bem, é verdade. Então que tudo seja feito, por favor!
- Ok. Mas espere algum tempo, senhor, assim eles irão pensar que ele se perdeu e acabou se machucando. E quando eles souberem dele, ele já não poderá mais voltar!
- Sim, excelente doutor Williams! – o que um pouco de ouro não faz, não?!
- Obrigado. Mais alguma coisa, senhor Whitlock?!
- Não, por enquanto é só!
- Ok. Agradeço a sua preferência, senhor. Estou à disposição!
Nos cumprimentamos, peguei meu chapéu e então saí. Voltei à carroça e então partimos.
[Jasper]
Acordei mais tarde do que eu imaginava ser. Cris já estava acordada, e sua cama já estava toda arrumada.
Percebi ainda que o lençol de Cris, estava agora comigo. Ela deveria ter o posto em mim depois que ela acordou, ou então foi minha mãe...
Eu não ligava, só queria descansar mais um pouco. Estava tão bom aqui... E pensar que algum tempo atrás eu vivia em meio a tiras e explosões de bombas...
Ponto final nessa parte de minha vida. Eu ficaria aqui, com minha família, que era onde eu estava bem e tinha o tudo ao meu favor. Eu estava confortável aqui, e não renegaria nada!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 2: Joe

[Jasper]
Meu pai não havia chego em casa ainda, e mamãe não estava preocupada.
Por que será? Ela sempre ficava eufórica quando demorávamos...
- Mãe, onde está Joe?
- Ah, filho, ele saiu para concertar alguns móveis e lamparinas na casa de sua avó, mas ele está demorando demais... Estou começando a me preocupar, sabe...
- Estou com o cavalo aqui, quer que eu vá atrás dele? – ofereci.
- Não, não, meu filho, por favor, não vá!
- Acalme-se mãe, eu irei voltar!
- Ah, não, Jasper, prefiro que você fique aqui comigo!
- Mas e se aconteceu algo com ele?
- Ai minha Nossa Senhora... – ok, eu não devia ter falado isso... – Será que aconteceu algo? Ai minha Virgem Maria...
- Ok, ok, mãe, relaxa! Eu vou atrás de Joe!
- Nãaao!
- Mãe, eu não vou demorar, ok?!
- Mas...
- Não se preocupe, mãe! Eu vou e já volto!
Saí antes que ela pudesse me impedir. Passei pelo sofá em que Cris continuava dormindo. Minha mãe me seguia, mas não tentava me impedir, então aproveitei.
- Tente levar Cris para meu quarto, se não conseguir, peça ajuda de um dos escravos...
Mary simplesmente aceitou sem falar mais nada, mas eu percebi que ela estava tensa. Estava com medo de que eu fosse embora novamente e não voltasse.
- Mãe, não se preocupe, eu já disse que voltarei! – disse já desatando a corda do cavalo amarrado aqui na varanda.
- Você promete?
- É claro que prometo! Voltarei!
Ela fez sinal positivo e então montei e saí a galope.
A casa de minha avó, Edimary, não ficava muito longe de minha casa. Uns, digamos, dois quilômetros só... Pelo menos, era a quantia que eu esperava que fosse...
A noite continuava escura, mas eu podia ver alguns finos e delicados raios do Sol surgindo lá no horizonte. Logo, o dia já estaria nascendo, e isso me ajudaria a chegar mais rápido na casa de minha avó – pelo menos, ficaria mais claro, e assim eu poderia correr mais...
Amanheceu.
Eu estava perto da casa de minha avó – realmente não demorava mesmo para chegar...
Parei na frente da casa e desmontei do cavalo. O amarrei em uma árvore. Fui até a porta, mas não bati de primeira, fiquei observando pelas vidraças da porta se havia algum movimento lá dentro. Nada!
Fui até a janela. Também nenhum movimento. Tudo estava em completo silêncio!
Eu estava começando a me preocupar quando ouvi um estalo seguido de um urro. Aquilo não veio da cozinha nem da sala, muito menos dos quartos... Vinha do porão, é claro! Se meu pai estava arrumando as coisas para minha avó, ele só poderia ficar no cômodo mais distante do quarto dela!
Fui até a lateral da casa, onde havia duas portinhas antigas no chão – a maioria das casas tem isso... Só a minha que não!
Mexi nelas e vi que elas estavam destrancadas. Abri e entrei. Estava claro lá dentro e então ouvi alguém parar de súbito – ele devia ter se assustado com o barulho de meu coturno batendo na madeira oca da escadinha.
Conforme fui descendo, a claridade foi me mostrando a realidade lá debaixo. As mesas estavam todas bagunçadas cheias de objetos em cima... Eu nem sabia dizer o que eram. Só sabia que alguns deles eram ferramentas de ferro – provavelmente, seriam para desparafusar os objetos quebrados.
Os armários estavam abarrotados de pequenas coisinhas quebradas... As mesas estavam com um monte de objetos separados... O chão estava cheio de sujeira... Ao fundo de toda essa bagunça, um senhor de aparência tensa estava preparado para atacar segurando algo.
Ok, eu não via o senhor, mas via a sua sombra, e ele realmente estava preparado para atacar.
Bom, recebi treinamento de como agir nesse momento, então comecei a andar sorrateiramente – se ele me atacar, eu saberei como desviar.
Quase chegando lá, o que eu esperava aconteceu! Ele me atacou em uma fúria tremenda! Desviei de seu ataque, mas vi que o martelo de sua mão por pouco acertou meu ombro. Se acertasse, era uma vez um ombro...
Então ele tomou fôlego para um novo ataque, mas consegui segurar seu braço primeiro.
Foi assim que nossas faces ficaram frente a frente, uma da outra.
- Pai? O que faz com um martelo?
- Jasper, filho!
Ele largou o martelo que passou raspando de meu pé – eu sempre odiei martelos, e agora eu percebia que martelos também me odiavam...
Ele me abraçou com força, e eu retribui o abraço. Fiquei um tempo em seus braços, e então ouvi alguns soluços... Meu pai estava chorando, e essa cena era uma dádiva... Eu estava presenciando o choro de meu pai e essa era, provavelmente, a única vez que eu o via nessas situações em toda minha vida.
Não... Na verdade, não... Ele tinha derramado algumas lágrimas quando... quando... Respirei fundo, eu não poderia ter mais problemas como esses... Quando meu irmão caiu no poço!
- Jasper – ele disse se afastando de meus braços, seus olhos ainda estavam transbordando de felicidade. – Você voltou?
- Sim, voltei!
- Deus seja agraciado! – ele disse e voltou a me abraçar.
Depois de toda essa cena, ele se afastou e se sentou em uma banquetinha. Fez sinal para que eu sentasse lá também, então puxei um banquinho e lá me acomodei.
- Como foi que você voltou?
- Eu estava trazendo algumas pessoas inocentes para cá a comando de meu tenente, mas... Bem, eu trouxe uma menina para ficar com vocês, mas achei melhor ficar junto dela... Nós nos demos muito bem e eu fiquei incerto se ela se daria bem com vocês...
- Como ela chama?
- Cristina, mas gosta que a chamem de Cris.
- Ela vai ficar conosco? – ele não tinha ido para casa para saber de Cris.
- Sim, a mãe sempre quis ter uma filha mesmo...
- Onde você a encontrou? Ela não é sua filha não, não é?! – Deus, no que é que meu pai estava pensando?!
- Não, pelo amor de Deus, pai! Eu saí de casa há pouco mais de dois ou três meses, não tem como eu ter uma filha de nove anos?!
- Ah... – ele disse envergonhado. – Ela é de onde?
- De Galveston. Sua família foi toda dizimada pelos soldados inimigos, então um de nossos soldados a pegou para trazê-la a um local seguro. E aconteceu que quando estavam todos lá na base, ela chegou e ficou sozinha, e acabei me identificando com ela... Nos tornamos grandes amigos...
- Ah, sim... Bem, estou curioso quanto a ela agora!
- Que bom. Tenho certeza de que o senhor irá gostar muito dela!
- Bem, e quando você decidiu que iria ficar e deixar o exército?
- Cris precisa de mim! Ela estava acostumada comigo, e eu temo que ela não se adapte sozinha... – era a maior mentira que eu já tinha contado em toda minha vida!
- Mas se ela ficará conosco...
- Eu sei, mas é que ela é muito tímida... Ela não se abre com todos... Eu tive a sorte de encontrá-la!
- Bem, então está tudo bem! E o exército? Eles sabem que você não voltará?
- Então... Por enquanto não me pronunciei a respeito para eles...
- Bem, então não se preocupe! Irei eu mesmo até a base aqui em Houston e os avisarei que você está enfermo, e que não poderá continuar com o exército...
- Pai... você tem... certeza de que quer fazer isso o senhor mesmo?
- Sim, filho. Eu já perdi você uma vez, não quero perder outra! Nunca vi sua mãe tão triste depois que você partiu! Você tentou amenizar a dor, mas isso não dependia de você!
- Mas é que...
- Jasper, sua mãe estava triste por saber que você estava triste e ela não podia fazer nada! Isso a magoava muito! Vê-lo partir foi mais difícil ainda do que saber que um filho tinha falecido!
- Não fale de...
- Mary sempre amou e deu mais atenção a você, que era o caçula, do que com Bryan... Bryan era o mais velho e mais bruto... Ele se metia em muitas confusões, e isso era motivo para que ela desse mais atenção a ele, mas eu me responsabilizava por ele, enquanto ela cuidava de você!
- A mãe já disse alguma coisa a respeito disso, mas pai...
- Se ela já falou, então não me venha com “mas”... Eu irei hoje mesmo pela manhã até um médico. Creio que será melhor se eu procurar pelo doutor Williams, que já é um conhecido da família! Vou pedir para que ele escreva um pedido de afastamento definitivo do exército para você!
- Mas você acha que vai dar certo?
- Claro que vai! E eles que insistam em não aceitar! Não quero que você volte para lá!
- Será que eles vão deixar mesmo tudo como está? Será que eles não viram até em casa para ver meu estado?!
- Claro que não irão vê-lo, pois posso dizer que você pegou... hmmm... lepra!
- Ergh... Pai, por favor... – éca...
- Ok, então... Pneumonia!
- Mas... pneumonia... eu... não sei...
- Vai dar certo! Não quero que você volte para lá, no Exército!
- Não sei se dará certo!
- Pois eu falo que é contagioso! Quero ver eles se aproximarem de você!
- Mas, assim ninguém, ninguém mesmo, chegará perto de mim!
- Sim, mas essa é a intenção!
- E se alguém depois vier falar que será preciso levar Cris, por causa da doença? Ela é só uma criança!
- Então digamos que o doutor prescreveu medicamentos em testes para ela e para o resto dos presentes em casa, e que por causa disso, podemos ficar junto de você!
- Mas... Ah, não sei pai!
- Vai dar tudo certo, meu filho! Depois de algum tempo, o exército nem se lembrará mais de você, e então você poderá seguir com sua vida normalmente!
- Depois de algum tempo? Quando tempo, mais especificamente?!
- Enquanto a guerra durar!
- Nossa!
- O que foi? Não gosta da ideia?
- É que, pelo que ouvi, os planos são de que a guerra se estenderá enquanto eles puderem lutar pelos ideias...
- E...
- E isso significa que eles farão milagres para continuar a guerra!
- E como você ouviu isso? De quem ouviu?
- Ouvi do próprio tenente e dos generais da base em Galveston!
- Filho, que coisa feia se espreitando para ouvir a conversa alheia!
- Mas eu não fiquei me “espreitando”!
- Não, filho? Então como soube?
- Eu sou Major, então sempre fiz parte das reuniões!
- Major?! – ele se assustou, mas logo em seguida percebi que ele estava feliz. – Meu filho é um Major? Meu Deus, você deve ser o Major mais jovem do mundo!
- Sim, o tenente disse o mesmo, mas ele não sabia que eu era literalmente o mais jovem de todos...
- Como assim? – ele ficou bem confuso.
- Eles só estão aceitando jovens com mais de vinte anos, e eu tinha dezesseis, mas completei dezessete já sendo Major!
- Filho, que ótima notícia! Você é o orgulho da família!
- Obrigado... – eu disse acanhado. Era raro ouvir algum elogio de meu pai... Talvez, com esse tempo longe, ele tenha aberto seu coração em casa... Finalmente, a casca dura tinha sido deixada de lado!
- Você mentiu então para entrar?
- Sim, tive que mentir!
- Isso não é algo que se deva orgulhar, Jasper!
- Eu sei que foi errado, mas eu queria aquilo... E esse foi o jeito que eu encontrei para conseguir!
- Bem, pelo menos você soube se virar sozinho... Isso é o que realmente importa!

E Se Jasper Não Se Transformasse...: Capítulo 1: Três

[Jasper]
Apesar da imensa lua, ela me oferecia uma luz fraca, apenas o suficiente para enxergar a silhueta de três senhoritas que estavam andando pela estrada deserta.
Eu não conseguia enxergá-las perfeitamente, mas alguns de seus traços estavam gritantes para mim mesmo neste breu.
Fiquei incerto se eu deveria desmontar do cavalo e lhes oferecer ajuda. Resolvi ir ao encontro das donzelas.
Quando estava a caminho, senti meus pelos da nuca se arrepiarem, e eu tinha quase certeza de que alguma coisa estava por vir naquele momento, eu só não sabia o quê, especificamente.
De instantâneo, todos os meus sentidos se aguçaram o suficiente de forma que eu pudesse ouvir ou sentir qualquer coisa que passasse ou estivesse perto de nós. Cada passo que avançava, eu podia ouvir o som abafado de meus coturnos ao se chocar com o solo. Havia algum animal por perto também – além do cavalo, é claro – mas eu não sabia distingui-lo.
O vento aparentava me avisar de algo com suas leves e tímidas brisas. A lua agora iluminava toda a cena a minha frente, me dando conhecimento da situação, ainda que não o bastante. E aquela sensação ruim ainda não havia dispersado.
Lembrei-me que, como soldado, eu não poderia jamais demonstrar alguma fraqueza, ainda mais com mulheres. Elas estavam paradas bem de frente a mim, face a face, no possível – eu era mais alto do que elas.
Quanto mais perto eu chegava delas, mais a sensação estranha me assolava – creio que aproximar de fantasmas estava me deixando confuso. Próximo, eu percebi o quão magníficas elas eram.
Suas feições combinavam com a mais pura porcelana que uma família financeiramente bem poderia ter, seus cabelos sutilmente bagunçados – talvez pela migração – e suas roupas banhadas em algo escuro, talvez um líquido ou lama, mesmo que não existisse isto por esta região no Texas.
Ainda assim, eu nunca havia visto três mulheres tão lindas em toda a minha vida.
Resolvi afugentar toda a minha covardia, e perguntar qual era o problema destas lindas criaturas – ah sim, por que humanas elas não eram... Elas deviam ser fantasmas divinos...
Parei a poucos passos delas, mas pestanejei no local onde me encontrava. Limpei minha garganta, como se assim o fazendo me daria mais coragem para proclamar qualquer que fosse a palavra, mas eu apenas não conseguia. Eu não conseguia parar de olhar assustado para elas.
Elas deram as honras.
- Ele está perdido – uma delas disse. Ela tinha os cabelos dourados e a voz mais linda e delicada que eu já havia ouvido. Elas pareciam sinos, pequenos e delicados sinos de vento. Um fantasma, certamente, não seria tão magnífico assim com ela, muito menos quanto às outras.
A encarei incrédulo por sua beleza, mergulhando-me em meus mais profundos e insanos pensamentos, o que me fez assustar levemente ao ver que a outra mulher ao seu lado estava quase que encostada a mim. Ela apenas estava se inclinando, talvez para me observar melhor, o que me proporcionou a belíssima vista de sua face angelical.
Ela me analisou intensamente com seus olhos semicerrados, olhou cada traço de minha face.
- Hmmm... Adorável – ela disse aos suspiros, o que me fez sentir mais calafrios ainda com o toque de seu hálito frio em minha quente pele.
A terceira mulher, que tinha feições mexicanas, estatura mais baixa que as outras e cabelos negros, se aproximou rapidamente onde se encontrava a que estava próxima a mim. Ela simplesmente pôs uma de suas mãos no braço da companheira e falou muito rapidamente, tão rápido que eu não pude perceber de imediato o que ela estava falando.
- Concentre-se, Nettie – ela disse soando como a mais graciosa música para meus ouvidos.
Naquele tom, a única coisa que consegui fazer era com que meu cérebro aceitasse era a suavidade com que as palavras soavam de seus lábios. E esta aparentava ser realmente a sua intenção – ela tinha um plano a ser posto em ação, e por alguma razão, ela não queria que isto saísse errado, o que me fez perceber que ela deveria ser a “líder” do grupo em que elas andavam.
- Ele parece perfeito: jovem, forte, um oficial – ela disse me olhando dos pés à cabeça. – E há algo mais... está sentido? – ela disse perguntando às outras duas atrás e novamente me olhando, agora mais próxima a mim provavelmente procurando por algo. – Ele é... – ela suspirou e buscou por palavras para me descrever, – convincente.
- Ah, sim – concordou Nettie rapidamente, vindo novamente em minha direção e se inclinando, agora com as pontas de seus dedos passeando delicadamente por meu pescoço, descendo aos meus ombros e depois braços. Ao seu toque, senti meus pelos se eriçarem mais uma vez.
- Paciência, não quero perder este – a morena avisou, creio que não só a Nettie, mas como a outra também.
Nettie pareceu não concordar muito com a preocupação da morena, pareceu se irritar com o que ela tivesse dito, como se aquilo fosse o maior dos crimes cometidos no Texas. Ela apenas ficou me rondando, caminhando em pequenos passos ainda me olhando milimetricamente.
- É melhor você fazer isso, Maria – a loura falou... – Se ele é importante para você. Eu mato mais vezes mais do que os mantenho vivos.
Ok, essa era a minha deixa... Nada de continuar ali.
Obriguei meus músculos saírem do transe daquela situação, e correrem o máximo que pudessem. O cavalo estava assustado, quase que fora de controle, então tomei algum trabalho para acalmá-lo antes de montar novamente.
Olhei para as três senhoritas e percebi que elas não fizeram nenhum movimento. Nada! Elas pareciam três estátuas de mármore muito bem entalhadas... E isso só piorava ainda mais a minha situação!
Quem é que acreditaria quando eu contasse que vi três fantasmas? Ou então três estátuas falando comigo? Ou pior, três estátuas fantasmas que eram lindas senhoritas perdidas em uma estrada abandonada?
Ninguém acreditaria e todos falariam que eu estava mal da saúde! Eu seria internado em um desses hospitais de saúde mental... E isso não é boa coisa, principalmente para a família...
Parti em galope o mais rápido que eu pude. Não queria olhar mais para trás, pois estava com medo que aquelas... senhoritas, viessem atrás de mim. E pela voz e beleza delas, eu podia afirmar facilmente que elas não eram pessoas normais, comuns...
Algo estava errado, e se elas já eram diferentes daquele modo, quem me garantia que elas não eram mais rápidas do que o cavalo?
Resolvi não arriscar e voltei pela mesma estrada da qual eu vinha.
Tempo depois, eu olhei para trás e não havia nada novamente. Nada! A Lua ainda brilhava lá em cima iluminando toda a vegetação daqui debaixo. Aquela sensação ruim já tinha se passado no momento em que resolvi fugir...
Fugir...
Inferno! O que minha família irá pensar de mim quando souber do que acabou de acontecer? Eles vão sarrear de mim pelo resto de minha vida! Serei a vergonha da família, pois estou fugindo de três senhoritas, mesmo que elas não aparentassem ser meras senhoritas inocentes...
Bem, se eu já seria motivo de vergonha em casa, mais ainda eu seria na base. Ok, o jeito é ir para o lugar em que eu estaria mais seguro contra tudo! – ou aparentemente tudo. A imagem das três moças lá na estrada continuava em minha mente. Cada vez que eu fechava os meus olhos, eu via a imagem delas ali presente.
Eu estava completamente atordoava... e perdido.
Na escuridão, quase que me perdi do caminho de volta. Só então percebi que eu estava mais próximo de minha casa do que por minhas contas...
Devo ter ido mais rápido, ou então fui na mesma velocidade, só que como me distraí na tentativa de fuga e com meu medo, acabei não percebendo...
Sim, deve ser isso...
De qualquer forma, agora eu já estava seguro – pelo menos, eu gostava de acreditar nisso...
Bati na porta. Minha mãe abriu a porta.
- Jasper, meu filho... O que você...
- Eu desisto, mãe!
- Você... desiste? – ela disse feliz.
- Sim, eu não quero mais ficar no exército, mãe. Quero outra vida para mim... Quero viver!
- Meu filho... Mas é claro... Venha, entre!
Entrei e vi Cris deitada no sofá dormindo. Fui ao seu lado e me ajoelhei para afagar seus finos cabelos. Desta forma, ela parecia um pequeno anjinho descansando.
- Linda, não?! – minha mãe veio ao meu lado.
- Sim. – Olhei para ela e então me levantei. – Precisamos conversar!
- Sim, claro. Vamos para a cozinha, então...
Chegamos lá e ela abriu um dos armários para pegar a caneca de fazer chá. Ela pegou algumas ervas de cima da fruteira e então começou a encher a caneca com água.
- Eu fico muito feliz por saber que você resolveu voltar, meu filho... – sim, ela estava realmente feliz... Dava para perceber de longe a sua felicidade. Contagiava a todos, mesmo que o “todos” só fizesse referência a mim...
- Obrigado, mãe. Obrigado por me receber novamente. Eu sei que errei, mas estou arrependido...
- Errou onde, Jasper? Você não precisa se sentir assim... – ela sempre foi tão compreensiva comigo...
- Sim, mãe, preciso sim, por que fui eu quem arruinou toda a felicidade e o bem estar desta casa! Eu preciso pedir perdão por ter arruinado tanto nessa casa. Eu tenho de pedir desculpas por ter sido tão ignorante e arrogante com a senhora e com todos daqui...
- Não precisa, não, meu filho. Eu sou sua mãe, e não importa o que aconteça, você sempre terá o meu perdão. Eu sou sua mãe e você é meu filho. Não importa o que aconteça, sempre te amarei!
- Mas, mãe... E todas aquelas vezes que te vi chorando?
- Eu chorava não porque você me fazia mal agindo daquela forma, eu chorava por saber que você estava infeliz... Isso me machucava muito mais do que qualquer coisa. Se alguém cravasse uma espada em meu coração, isso doeria menos do que ver você tão triste daquele jeito...
- Mas, de certa forma, era minha escolha continuar daquele jeito!
- Não, meu filho. Você pensa desta forma porque acha que é mais fácil, mas não é assim que as coisas são. A sua tristeza e depressão foi alimentada por muitos fatos que nem eu, nem seu pai fomos capaz de lhe tirar ou sequer amenizar.
- Mãe, não se sinta culpada. Nunca foi culpa sua... Nada disso foi!
- Jasper, eu sou sua mãe. É meu dever ficar junto de ti o tempo que for necessário, aconteça o que acontecer. Você precisava de carinho e conforto, você precisa se sentir literalmente em casa, e eu não fiz nada disso para você. Eu tinha pouco tempo disponível, e quando ainda tinha, desperdiçava com coisas inúteis...
- Mas, mãe...
- Filho, o meu amor por você é incondicional, ok?! E nada me alegra mais do que saber que finalmente meu filho querido está de volta a casa.
- Mãe, por favor...
- Você não sabe o quanto me magoou saber que você tinha partido assim como seu irmão. Seu pai me disse que os soldados podem enviar cartas à sua família quando estão nas bases, e então eu fiquei esperando cada dia que o carteiro passava na frente de nossa casa esperando por alguma notícia sua.
- Desculpe, mas é que eu não queria incomodá-la mais...
- Eu sei, querido. Eu entendo, no fim das contas. Eu cheguei a pensar que você estava morto em uma certa hora, sabe, ou que não sabia que poderia me enviar cartas. Isso me ajudou a pensar de uma forma diferente, querido. Só com sua partida eu pude perceber o quanto eu estava deixando de cumprir aqui em casa.
- Eu não queria que a senhora se sentisse assim...
- Eu sei, mas eu senti isso...
- Desculpe.
- Não se desculpe, meu filho, pois isso foi bom para mim. Joe e eu estávamos pensando em ter outro filho, ou então adotar alguém. Eu estava ciente do que eu tinha errado e estava comprometida a nunca mais pecar nos mesmos erros. Se eu errasse, seriam em novos erros, mas não os antigos... Eu estava disposta a começar uma vida nova com alguém novo, mas sem esquecer de você, meu filho...
- Então, você quer que eu vá?
- Nãaaao, pelo amor de Deus, Jasper... Não, isso nunca! – ela se desesperou.
- Mas, se é o que a senhora pretendia...
- Eu pretendia isso porque pensava que você não estava mais vivo, meu filho. Eu queria ser mãe novamente, ter alguma criança perto de mim, mesmo que ela não fosse de meu sangue. E aconteceu que finalmente meu filho legítimo voltou para casa com aquela bonequinha na sala.
- Mas, mãe...
- Não, Jasper, pare de me interromper... Você não vê? Estou tão feliz por ter agora dois filhos? O meu caçula e uma menina? Eu sei que errei ao deixar que você partisse uma vez, mas agora não cometerei o mesmo erro. Você não irá embora de mim outra vez... Ou vai?
- Não, se a senhora prefere que eu fique... Se a senhora acredita que é melhor para a senhora que eu fique aqui...
- Eu acredito nisso. Sempre acreditei na verdade, que um dia você pudesse voltar, mesmo que você estivesse sem um braço ou uma perna, mas eu acreditava que você um dia voltaria...
- Mas você disse que chegou a acreditar que eu estivesse morto... – agora eu tinha ficado realmente confuso.
- Eu sou mãe, Jasper, te lembras? Não importa o sentimento que está na base do coração, o que vale é sempre a essência do coração, e a minha essência era você. No fundo, eu sabia ou gostava de acreditar que você estivesse vivo. E para minha sorte, aqui está você!
- Então, tudo bem se eu ficar mesmo?
- É claro, meu filho. Seu quarto está da mesma forma que você tinha deixado...
- Err... Da mesma forma? – aquilo deveria estar todo branco de tanta teia de aranha...
- Sim, da mesma forma. Mas se preferir, podemos trocar como se isso marcasse um novo começo!
- Ah, não, está tudo bem com aquele quarto daquela forma... Eu gostava dos objetos naquele quarto em certos locais respectivos.
- Ok, então. Agora, você prefere chá de hortelã ou camomila? – amor ainda radiava de minha mãe.
- Ahn... Os dois!
Ela riu e então separou duas xícaras para mim, uma de cada sabor.
Finalmente, tudo estava bem. Eu estava em casa, minha mãe agora estava mais feliz do que já a tinha visto em toda minha vida por estar com seu filho desaparecido e com uma filha que sempre quis ter, e... Meu pai!
Onde é que ele estava que eu não o tinha ouvido ainda?
Será que ele não tinha chego ainda em casa?